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Helenismo e a Tragédia Grega

Eurípides

O homem como ele é



Nasceu na ilha de Salamina por volta de 485 a.C., na mesma época da gloriosa batalha naval que livrou os gregos da aventura persa.

Viveu a maior parte de sua vida em Atenas, onde fez parte de diversos círculos filosóficos e, provavelmente, o sofista Protágonas e Sócrates, de quem era amigo, tenham sido quem mais influenciaram seu pensamento crítico.

Sobre sua vida social pouco se sabe, mas pelas paródias que autores cômicos como Aristófanes a ele se referiram, Eurípedes preferia o recolhimento, o pensar e o saber à relações sociais mais amplas. Também desconhece-se qualquer função pública que ele haja exercido em Atenas. A longa e destruidora guerra do Peloponeso, durante a qual ele escreveu a maior parte de suas peças teatrais, deve haver influenciado o ceticismo do poeta, provocado de certa forma, uma ruptura nos tradicionais valores religiosos, assim como nos valores da já decadente democracia grega.

A expressão máxima do imperialismo e da brutalidade ateniense, quando do extermíno dos habitantes da ilha de Melos que lhe resistira, influenciou diversas de suas tragédias,nde os vencedores agressores são assassinos e os vencidos, os verdadeiros heróis na defesa da pátria. Seu forte espírito anti-belicista, torna-o um crítico da política e todas as suas tragédias têm forte componente político- pacifista. O público que o aplaudia, ambiguamente, apoiava a política guerreira e imperialista de Atenas. Mas o tempo chegaria em que, derrotados na Sicília, começariam os atenienses a sofrer na própria pele a amargura que os vencidos nas lutas mitológicas “sofreram” e que eram espelhados nas obras do poeta.

Graças ao seu racionalismo e a uma menor influência da religiosidade de Ésquilo e de Sófocles, os personagens de suas tragédias, os heróis euripidianos, aproximam-se da realidade humana, de suas limitações, de seus vícios, das maldades e das virtudes. Desta forma, a tragédia passa a expressar o pathos da condição humana, desligando-se da significação divina e tornando a vida confusa e inconstante. Aristóteles diz sobre os heróis de Eurípides que o mau não agia de bom grado na maldade, mas mesmo assim, cometia a desmedida; que as personagens proclamam abertamente não terem sido culpadas, pois teriam atuado a despeito de si mesmas, por coerção, muitas vezes sobre o domínio de violenta paixão.

Eurípedes escreveu no mínimo 74 peças teatrais, sendo 67 tragédias e 7 sátiras. De toda esta produção chegaram até nós as seguintes tragédias: Alceste, Andrômaca, As Bacantes, Electra, As Fenícias, Hécuba, Helena, Héracles, Os Heráclidas, Hipólito, Ifigênnia em Aulis, Íon, Medéia, Orestes, As Suplicantes e As Troianas.

As Troianas



A tragédia foi apresentada pela primeira vez em 415 a.C., já na velhice do autor. A história se desenvolve após Troia ser tomada pelas armas dos gregos, sob o comando de Agamemnon. O único cenário da peça é exterior às muralhas da cidade que está sendo destruída e consumida pelo fogo. Ao fundo se vêem as tendas onde os gregos aprisionaram as mulheres troianas. Do ponto de vista teatral, as Troianas supera outras tragédias dada a sua intensa movimentação, seus sons e coreografia que grande impacto que devem ter produzido nos espectadores: a presença dos deuses já no seu princípio, Hécuba em seu desespero, Cassandra entoando o hino desesperado de um himeneu renegado, O carro em que levam Andrômaca e o pequeno Astinax, cujo assoalho é o escudo de Heitor; a criança que lhe será tomada dos braços para ser assassinada, e o escudo paterno que lhe servirá de mortalha, a invocação desesperada das pobres troianas aos mortos, a cidade incendiada que desmorona.

Os confrontos entre os protegonistas tomam a cena e o coro passa a exercer um papel mais de coadjuvante, quase sempre falando pela boca do Corifeu. Pobre dos vencidos. Mas quanta honra demonstram, a começar por Heitor, morto em combate por Aquiles na defesa da Pátria, passando pelo rei Príamo, assassinado desarmado no altar dos deuses e Hécuba em sua resistência bravia.

Os vencedores, os nossos conhecidos heróis gregos, que venceram uma guerra graças à malícia ( O Cavalo de Troia), são implacáveis homicidas, depravados que realizam o sacrifício humano, infanticidas, estupradores e impiedosos, não respeitando nem seus próprios deuses, que também são também os dos troianos. Ao lado do brado claro contra a matança perpetrada por Atenas na ilha de Melos, soa, por outro lado, o alerta do artista ao povo de Atenas, às vésperas da guerra contra a Sicília: quem desencadeia uma guerra pode perdê-la. Vejam o destinos dos vencidos! Viva a paz!  

 

 

As Troianas é aberta por um monólogo épico do deus Poseidon, invisível aos mortais, tendo ao fundo a cabana das prisioneiras, e Hécuba que chora caída ao chão. O deus conta a história do povo derrotado, da Íleon que ele ajudara a erguer as muralhas. Fala dos negros navios carregados dos espólios de guerra e de mulheres escravas, que, após dez anos de guerra retornarão às terras gregas. Canta a saga das desgraças de Hécuba, cujo marido, o rei Príamo, fora assassinado no altar de Zeus; de sua filha Polixena sacrificada no túmulo de Aquiles; todos os seus filhos homens mortos; de sua filha; fala de Cassandra, que será escrava e concubina de Agamemnon. Debita a Hera, aliada à Palas Atena, a perdição da cidade.

Do deus se aproxima a deusa Atena e o trata familiarmente. Poseidon não expressa ódio e diz que entre parentes, o coração se rende facilmente. Os negócios humanos são quase uma diversão e jogo entre os deuses. Palas propõe a Poseidon uma aliança que sairá cara aos gregos, dado que foi por eles ofendida gravemente, pois a virgem Cassandra fora estuprada por Ajax em seu templo, sem que os chefes gregos nem o tivessem censurado ou punido. Combinam que o retorno de Troia custará muito caro aos gregos. Poseidon sentencia uma mensagem de paz: ”O homem que destroi cidades é um demente e o que profana templos e abandona os túmulos, cedo há de perder-se.” Retiram-se os deuses.

Hécuba grita a sua dor: “Levanta do chão esta cabeça infortunada, apruma-te! Não existem mais Troia e nem rainha, a sorte muda, deves resignar-te...Navega, entrega-te ao azar dos ventos.” Os deuses já não são citados, o imponderável dirige o destino humano. “Vieram procurar a esposa pérfida de Menelau...assassina de Príamo, pai de cincoenta filhos, e para mim, Hécuba, causa de meus males e ruína!...Mulheres infelizes dos troianos e vós mesmas, as virgens, que nunca chegareis a ter um esposo.”

O coro é formado por moças troianas, assim como os Corifeus: “Desventuradas, míseras troianas! Iremos conhecer as provações que nos aguardam. Vinde todas para fora, os gregos estão prestes a partir”. “Iremos suportar ignóbeis provas: ou nos estarão reservados os leitos gregos (maldita seja essa próxima noite!) ou nos constragerão a carregar água, criadas dignas só de piedade!.”

Este é o lote final de prisioneiras a ser distribuído aos generais vencedores; o coro externa a preferência por viver na terra de Teseu- Atenas- a todas as outras terras gregas. Entra Taltíbio, arauto do exército grego e comunica que decisões definitivas foram tomadas e que a cada prisioneira fora definido um destino: Cassandra será levada como concubina por Agamemnon; Polixena morreu sobre o túmulo de Aquiles; Andrômaca, esposa de Heitor, será a prenda de Neoptólemo, filho de Aquiles; Hécuba será escrava de Odisseu, Ulysses.

Hécuba, que durante a guerra garantira a incolumidade de Ulysses, que burlando a vigilância penetrara na cidade para falar com Helena e, preso pelos troianos fora poupado da morte por intervenção de Hécuba.”A sorte impiedosa fez-me escrava de um ser abominável, duro, pérfido, um inimigo da justiça, monstro sem lei que difama os outros, língua duplamente falsa que espalha o ódio onde reinava a paz!” O grande herói da Odisséia de Homero é um patife e ingrato!

Aparece Cassandra, saindo de uma das tendas dançando com as insignias de sacerdotiza e traz na mão direita uma archote.  Comporta-se como em um delírio em que celebrasse seu próprio casamento. Os viventes, por determinação de Apolo, estão destinados a nunca acreditarem nos vaticínios da profetiza: ”Agamemnon terá em mim esposa mais funesta que Helena; fá-lo-ei morrer e arruinarei sua casa e raça como ele a minha, vingando assim meu pai e meus irmãos finados... Por causa de umsó amor, só por Helena, tantos gregos pereceram! Seu chefe sacrificou a própria filha visando o mais nefando dos fins... Os homens deste rei foram dizimados em árduas lutas cujo prêmio não seria nem a sobrevivência do país natal nem a preservação de muralhas ancestrais...Em terra estranha jazem seus corpos sofridos; nos seus lares moram desditas iguais, pois morrem viúvas as mulheres sem arrimo e sobre os seus túmulos ninguém oferecerá sacrifícios. Aí está o mercido panegírico à expedição grega”.

Quem é tresloucado? Quem é o delirante? Pela voz de Cassandra fala Eurípides em favor da paz, contra os belicosos de sua Atenas. A única luta guerreira que se possa justificar é em defesa de próprio país. E segue Cassandra: “Quanto às ignomínias dos seus soldados é melhor silenciar! Jamais me venha a doce inspiração das musas para cantar e celebrar infâmias tais! Desde logo, da parte dos troianos estava a glória inigualável: morriam pela Pátria.” Celebra a bela morte de seu irmão Heitor em combate.“Deve o mortal sensato detestar a guerra; se ela todavia for inevitável, os louros não serão dos que morrem lutando por uma causa sem honra.”

Taltíbio intervém e diz que jamais teria aquela doida em sua cama. Ao que lhe responde Cassandra: “Por que ostentam o pomposo nome de arautos esses detestáveis componentes da corja ,com razão, por todos desprezada, esses pretenciosos moços de recado, abjectos serviçais dos reis?” E conclui anunciando as desgraças que sobre os gregos se abaterão: “Hécuba aqui morrerá; Odisseu desventurado! Ele não imagina os sofrimentos incríveis que o aguardam! Os meus males e dos troianos hão de um dia parecerem-lhe invejáveis.” Caminha para a nau de Argos.

O coro de mulheres troianas relambra o Cavalo deixado às portas da cidade e para dentro carregado pelos troianos, crentes que os gregos haviam voltado para suas terras e abandonando um ídolo a Poseidon. Relatam o combate desigual e a matança perpetrada nas sombras da noite pelos gregos, escondidos no Cavalo mortal. A vitória fruto do embuste. Chega Andrômeca em um carro cujo fundo é o escudo do marido morto. Grudado em seu seio, o pequeno Astinax, filho do herói Heitor. “Somos, eu e meu filho, troféus de guerra; levam-nos a nobre passo para sermos escravos.” Andrômaca compara-se a Polixena e sente-se mais infeliz do que aquela que foi decapitada à sombra de Aquiles. Hécuba lhe diz que ela não deveria comparar a morte à vida, pois aquela é o nada e esta é tudo. Responde-lhe Andrômaca, preparando sua própria desdita que será ainda maior:”Morrer deve ser como não haver nascido e a morte talvez seja melhor do que a vida de dor e mágoas, pois não sofre quem não tem a sensação dos males; mas quem se despenca das culminâncias da fortuna e cai no abismo da adversidade tem a alma frequentada por pertinaz saudades do fausto passado. A morte para a tua filha é como se ela jamais tivesse existido; seus infortúnios já não lhe pesam, pois deixaram também de existir...” Hécuba tenta consolá-la para que aceite seu novo senhor e esqueça Heitor.

Nisto chega Taltíbio com nova ordem dos aqueus: “Odisseu convenceu os gregos de que Astinax deve morrer para que, no futuro, não vingue seu pai, Heitor”... Astinax será atirado do alto das muralhas de Íleon. “Peço que não amaldoçoe os helenos Andrômaca, pois se a cólera das tropas açular, esta criança não terá um funeral piedoso e túmulo condigno. Se calas, o corpo de teu filho será sepultado.” Os vencedores são capazes das maiores covardias e brandem ameaças e chantagens contra mulheres indefesas. “Ah gregos, inventores de suplícios bárbaros! Por que matais esta criança inofensiva? E tu, Helena, não és filha de Zeus! És filha de outros homens! Do Ódio, da Perversidade, do Crime e da Morte, de todas as calamidades do mundo!..demônio funesto tanto aos bárbaros quanto aos gregos... Que seja assim, arrebatai-me esta criança, levai-a já de mim, lançai-a das alturas se vos apraz! Fartai-vos desta carne tenra! Os deuses decretaram nossa perdição e não possso impedir a morte de meu filho!”

Taltíbio entrega a criança aos soldados que irão executá-lo e se afasta. Andrômaca é levada para os navios. Entra Menelau com escolta, em busca de Helena que está em uma das tendas e monologa: “Como o teu brilho é belo, luz do sol, no dia em que vou ver de novo Helena, minha esposa!...Não foi uma mulher a causa de minha expedição a Troia: foi um homem odiado e detestado como nenhum outro que me arrebatou Helena. O exército me concedeu a incumbência de matá-la à menos que eu julgue preferível reconduzi-la a Argos. Decidi que a sorte dela não será ditada aqui”.

Hécuba reza para que Menelau ganhe coragem e mate Helena. “Mas vejo que tens receio de enfrentá-la, pois o olhar de Helena atrai o olhar dos homens e os cativa, arruína povos e os incendeia.” Mas a vacilação de Menelau permite a discussão entre Hécuba e Helena.

Helena busca justificar-se utilizando-se dos deuses, na sabedora de que a melhor defesa é o ataque: “Tu foste a causadora de todas as nossas desgraças por haveres gerado Páris;  Príamo que não matou o recém-nascido... que mais tarde foi o árbitro escolhido pelas três deusas. Palas ofereceu-lhe a Grécia, ...Hera, o Oriente, se a uma delas outorgasse o prêmio pela beleza. ..Mas, elogiando as maravilhas de meu corpo, estipulou-me Afrodite como recompensa... Afrodite foi eleita e eu fui entregue a Páris, e, graças a tais núpcias, os gregos não caíram sob o domínio bárbaro...mas a salvação da Grécia, perdeu-me...Tu, Menelau que deixaste-me só com Páris em palácio, castiga Cípris ( Afrodite); a mim, perdoa-me, não sou culpada”. E segue: “Quando Páris morreu, tentei a fuga por cordas pelas muralhas... De toda forma, meu esposo, se queres te sobrepor aos deuses, tua pretensão é insensata”. O sofisma que Helena utiliza é precioso: a Grécia se salvara graças à sua escapadela por dez anos com o amante. O responsável pela sua taição são os deuses e seu marido por ausentar-se numa noite!

Hécuba : “Estas competição entre as deusas certamente foi uma frivolidade ou um divertimento. A que serviria a Hera o desejo insano de ser a mais bela? Seria para conquistar um esposo melhor que Zeus? Quereria ser Palas a mais bela para que? Ela que implorou a Zeus o privilégio de ser eternamente virgem, pois as núpcias a repugnavam? Não procures disfarçar a tua perversão atribuindo às deusas tuas insensatezes. Meu filho com toda a sua beleza causou-lhe a impressão de Cípris, pois as loucuras de amor que os homens consideram diferentes e imputam a Afrodite são iguais às outras. Querias o luxo e o palácio de Argos já não te bastavam...durante a guerra sempre tratastes de estar ao lado daquele que mais se aproximava da vitória...Quantas vezes te adverti, vais minha filha, parte para teu marido e que se termine esta guerra. Mas o que convinhas era o luxo que tinhas em Troia... Menelau: adorna a Grécia com a morte desta mulher.”

Menelau concorda com os argumentos de Hécuba de que, por vontade própria, Helena abandonara seu lar. Mas não tem coragem de matar Helena e a manda embarcar de volta a Esparta, dizendo que lá ela seria sentenciada à morte.

Assim são os heróis agressores pintados por Eurípides: fracos, pusilânimes, cornos prontos a, por covardia, vergarem-se à beleza conveniente. Saem Menelau e Helena e entra Taltíbio com soldados, trazendo o cadáver de Astinax colocado sobre o escudo de Heitor. Ele pede que Hécuba que prepare o corpo para sepultura. Hécuba: “Gregos, tão vaidosos de vossas proezas bélicas! Mas pela inteligência não vos orgulheis após esse assassinato insólito! Que poderiam recear de uma criança? Que ela fizesse Troia reerguer-se das cinzas? ...Merecem só desprezo as almas pusilânimes que não ponderam as razões de seus temores!.. .E que palavra escreveria um poeta sobre tua lápide? “Aqui repousa uma criança trucidada pelos vitoriosos gregos que a temiam”...Que enorme opróbio para a Grécia esta inscrição!.. Trazei mulheres alguns adornos para eu preparar o morto”. “Baixai o corpo à sepultura envolto nestes trajes próprios dos mortos. Aos que morreram pouco importam o luxo e o valor das oferendas fúnebres; elas apenas alimentam a vaidade dos vivos, sempre anciosos por glória”.

Taltíbio transmite a ordem de que nada seja deixado sem arder em Troia, que os soldados detruam tudo pelo fogo. E que Hécuba siga para a nau do odioso Odisseu. Hécuba foge às mãos dos soldados para atirar-se ao fogo, mas eles conseguem evitar que ela arda com a cidade.

Nada mais resta a fazer; após suas lamentações as mulheres são empurradas para o navio grego que as espera para partir.

Eurípedes contou-nos a guerra de Troia baseada na Ilíada de Homero. Vernant considera que o próprio texto da Ilíada constituia uma narrativa estilizada das ambiguidades da guerra: “guerra defensiva, feita para se defender da violência do inimigo e preservar a ordem pacífica de uma comunidade humana; guerra ofensiva, dirigida para a destruição selvagem, para a morte, desejada para o inimigo, aceita para si”.

Electra



A leitura de Electra de Eurípedes nos permite analisar as diferenças entre Eurípedes, Ésquilo ( nas Coeforas ) e Sófocles com a sua Electra.

Os estilos se diferenciam, os desígnos divinos perdem gradualmente importância frente aos desejos humanos. Em Ésquilo, Orestes é um instrumento da vontade dos deuses e, após o matricídio cometido, será perseguido pelas Fúrias; em Sófocles ele será o vingador do pai e um defensor da irmã e as Fúrias já não se apresentam. Em Eurípedes, humanizam-se Orestes e Electra. A vingança pela morte do pai é um argumento para a ação dos irmãos, não seu elemento central, pois esse fora a perda do poder e dos bens materiais. Orestes exita antes de matar a mãe e tem o punhal conduzido pela irmã. Consumado o ato, arrepende-se. Cria-se uma aporia e Eurípedes faz surgir seu deus ex-machine, os Dióscuros, que anunciarão a absolvição de Orestes.

 

 

Electra principia tendo como cenário uma simples casa no campo e um Trabalhador micênico que monologa, contando a história de Agamemnon, sua aventura em Troia, o retorno a Argos e a morte pelas mãos de Clitemnestra e Egisto. Fala também sobre um velho aministrador do rei, que salvara Orestes, ainda criança, de ser assassinado por Egisto e que Electra teria encontrado a morte se sua mãe, temendo a reação do povo, não houvesse parado a mão do amante, dando a filha em casamento para ele, um pobre trabalhador do campo.

Diz também que jamais possuíra a própria esposa, pois isto significaria violentar a filha de gente muito iluste. Entra em cena Electra. Electra que, grata ao marido por não a ter ofendido em sua miséria, reparte com ele os afazeres domésticos. Sai para buscar água na fonte límpida.

Orestes e Pílades, chegados do exílio observam uma mulher com uma bilha de água na cabeça, e julgam-na uma escrava. Orestes confidencia ao seu maior amigo, o único que não o abandonara na miséria, que confiando na palavra de uma divindade, retornara disposto a dar morte aos assassinos do pai, mas que evitaria colocar os pés na cidade enquanto não revisse sua irmã, que soubera obrigada a casar-se.

As lamentações de Electra dirigem-se ao coro de mulheres argivas que a acompanha e que lhe comunicavam que os argivos fariam um holocausto de três dias e que as virgens estavam sendo convocadas a ir até o Templo de Hera: “As lágrimas substituem as danças festivas…vede o estado dos meus cabelos e de minhas vestes. Condizem com a situação de princesa ou se assemelham a uma escrava troiana que meu pai tenha trazido da guerra?...Nenhuma divindade ouve os clamores de uma mísera criatura…Ai de mim- meu pai está morto, meu irmão vaga por terras estranhas e quanto a mim, vivo em uma choupana, sofrendo o desgosto de me ver exilada da casa paterna, enquanto minha mãe se uniu criminosamente a outro, num lar maculado pelo crime!”

Orestes, que a ouvia, reconhece-a como sua irmã, mas sem identificar-se apresenta-se como um mensageiro do irmão. Electra mostra-lhe a choupana em que vive, que seu marido, que lhe fora imposto, era pobre, porem generoso e que a respitara, não a tendo tocado desde o himeneu ( na verdade, respeitava a diferença social), ao que Orestes diz: ”Ele receou a cólera de Orestes”. “Acredito, mas é um homem digno”, retruca a irmã. Os nobres, mesmo na pobreza, são incapazes de verem grandeza no comportamento dos pobres. Julgam a todos por si mesmos. Ou, talvez, terá sido apenas a juventude de Orestes que o leva a exaltar sua valentia?

“Egisto quer que meus filhos sejam pobres e submissos, por isto obrigou-me a casar com tal marido.” “E tua mãe consentiu neste casamento?”, pergunta-lhe Orestes. “As mulheres, estrangeiro, amam os homens , não aos filhos… Egisto quer que meu filhos sejam pobres e submissos, e julgou que o conseguiria dando-me este marido”. “E o marido de tua mãe sabe que continuas virgem?” “Não, mantemos segredo sobre isto.” Pergunta-lhe mais uma vez aquele que Electra julga um estrangeiro: “E tu, prestando auxílio a Orestes, terias coragem de matar a tua mãe?” “Sem dúvida, responde, e com o mesmo ferro com que meu pai foi ferido”.

Orestes e o coro pedem a Electra que detalhe todos os males que se abateram sobre os descendentes de Agamemnon. Ela descreve a miséria em que vive, enquanto a mãe usufrui de todos os tesouros trazidos pelo pai das batalhas; que o túmulo de Agamemnon está abandonado e sem libações; que Egisto vive em estado de embriaguês e profere ultrages contra o morto e contra a memória de Orestes, e conclui: “É incrível que o filho de um herói não possa matar um só homem, sendo jóvem e descentente de pai ilustre”. Volta o Trabalhador e convida os estrangeiros para que entrem em sua casa e insiste que aceitem o pouco que tem oferecer, ao que retruca Orestes para Electra: “Pelos deuses! E foi este o homem que não quiz se unir a ti para não fender Orestes?” Reconhece o seu erro ao julgar as pessoas pela situação econômica, e por sua boca quem fala, então, é Eurípedes, o humanista: “Não há sinal quanto à virtude de um homem. A natureza dos mortais nos induz à confusão…Tenho visto a miséria na alma de um ricaço e um belo espírito na de um pobretão. Como havemos de distinguir as coisas? Pela riqueza? Seria um péssimo guia…Pelo que nada tem? Mas a pobreza instiga ao mal aquele a quem tudo falta. Devemos regular pelas armas? Mas quem pode assegurar que o que carrega uma lança seja um valente? O melhor é deixar correr o mundo…Um braço robusto não sustém melhor a lança que um braço frágil: é a índole e o valor moral que tudo fazem.”

Electra não é feita do mesmo material que Orestes; diferentemente da personagem de Ésquilo, ela não constitui um duplo do irmão. Ela se comunica com o marido Trabalhador através de ordens; que saia e vá procurar pelo velho administrador, aquele que salvara Orestes ainda criança das mãos de Egisto; traga-o, assim como alguns acepipes que agradem aos hóspedes. Quando esse retorna, faz-se acompanhar do velho administrador, que aporta aos hóspedes um cordeiro, queijo e vinho. O velho conta que no caminho passaram pelo túmulo de Agamemnon e lá encontrara as mechas de cabelo deixadas por alguem que prestara homenagens ao morto. Ao avistá-lo, Orestes pergunta à irmã, “Quem é esta ruína humana?”, para logo depois vir a saber que ao velho homem ele devia a própria vida.

Como são ambíguos os eupátridas, como a juventude é pretenciosa! Entretanto, o velho induzido pela mecha de cabelo semelhante a do estrangeiro e por uma pequena cicatriz na pálpebra, identifica nele o exilado Orestes. Termina o mistério e nosso herói abraça a irmã dizendo-se seu vingador. Depois interroga o administrador sobre os amigos que ainda possuiria em Argos. E ouve: “Não tens um único amigo em tua desdita. São raros os verdadeiros amigos, aqueles que conosco partilham a boa e a má fortuna. De teu braço e de teu destino dependem todas as probabilidades que tens de recuperares o solar paterno e a tua cidade… Será preciso que pereçam o filho de Tiestes e tua mãe.” E detalha-lhe uma ideia: “Egisto prepara um sacrifício com vários bois, eu o vi há pouco e com ele somente estavam servos, não os soldados… Caminha para ele, que deverá te convidar para o festim, terás tua oportunidade”. “Mas não virá minha mãe com o seu marido?” “Não, responde-lhe o velho, esta mulher ímpia tornou-se objeto do ódio popular”. “Sendo assim, como matarei a ambos?” A esta questão responde-lhe Electra: “Não se preocupe, de preparar a morte de minha mãe, encarrego-me eu”.

Electra imediatamente se apresta em executar seu plano. Envia um emissário ao palácio a dizer que, grávida, ela dera à luz, estando em resguardo do parto. “Ela virá, somente para comprovar o abastardamento de minha raça, e, vindo, morrerá”. O velho administrador já não suporta tanta violência matricida: “Que eu morra antes de ver isto”.

Electra dirigindo-se a Orestes em quem já notara vislumbres de infantilidade: “Agora é preciso que te mostres valente. E vós, mulheres trazei-me logo as notícias do combate; eu esperarei de espada na mão, pronta para morrer, pois nunca, vencida, consentirei que meus inimigos ultrajem meu corpo ainda com vida!” Retiram-se o velho, Orestes e Pílades. Permanecem em cena Electra e o coro de mulheres. Coro que após narrar as desgraças que envolvem a casa dos Atridas, conclui: “Mas nós não cremos que Hélios tenha alterado a rota de seu carro de ouro para punir os homens, ou para intervir em suas vinganças recíprocas…”

Eurípedes reconhece os deuses, presta-lhe as homenagens cívico-religiosas, mas os deuses têm seu mundo, os homens o deles, com cada um cuidando dos seus próprios interesses. “Mas amigas, ouvistes um grito? Dir-se-ia que foi um raio de Júpiter subterrâneo…” O coro, Electra e o um mensageiro, Pílades, que fala: “Alcançastes uma vitória sem par! Orestes venceu na luta, Egisto está morto”. “Ao nos encontrar, Egisto convidou-nos para entramos no palácio, e iniciou o sacrifício de um bezerro, rezando em voz alta por sua felicidade e pela de Tíndara ( Clitemnestra, filha de Tíndaro); enquanto assim fazia, Orestes rezava em vós baixa para que os deuses lhe permitissem recuperar o patrimônio paterno. Morto o primeiro animal, Egisto ofereceu a faca sacrificial para Orestes abater o próximo. Assim o fez, mas quando abriu-lhe as entranhas , faltava ao bezerro um lóbulo intestinal, sinal de mal augúrio… e no momento em que Egisto abaixava-se para examinar o animal, de surpresa ele foi perspassado pela lâmina de Orestes. Aos servos que quizeram resistir, Orestes identificou-se como o filho vingador de Agamemnon. Todos vieram cumprimentá-lo e coroar a sua cabeça.”

Chega Orestes e presta honra aos deuses e à Fortuna, dos quais ele fora simples instrumento. “Trouxe aqui o próprio morto, Electra fazes dele o que quizeres, ele que se dizia teu senhor! Entregai-o às aves ou aos animais carniceiros, ele te pertence.” Ao que a calculista Electra retruca: “Temo desagradar aos deuses ultrajando os mortos, e, ademais, esta cidade é irritável, sempre disposta à censura.” Com receio de ultrajar o cadáver com ações, Electra o realiza com palavras: “Tu me desgraçaste, bem como a meu irmão; tu nos deixaste órfãos de pai querido, de quem nenhuma ofensa recebeste!...e incorreste na loucura de supor que nossa mãe te seria fiel, ela, a quem desposaste violando o leito de nosso pai! Saiba todo aquele que corromper a esposa de outro por uma união adúltera…que é infeliz se considera que ela lhe concederá a fidelidade, que já não concedera ao outro… Bem que ouvias os argivos dizerem: “Ele é o marido dela, mas ela não é a esposa dele… porque é uma vergonha que seja a mulher e não o varão que governe a casa…sempre que um homem se casa com uma mulher de estirpe mais ilustre, o marido passa a valer nada, e só a esposa que se considera…Só a moral prevalece e não a pecúnia!”

A falsidade de Electra transparece no seu próprio desagravo com um morto. Por acaso não realizara o mesmo que a mãe com Egisto com o seu marido Trabalhador, que ela trata como um servo? Ela falando de moral e pecúnia, quando justamente a perda de posição social e da riqueza são os fatores mais instigadores de seu ódio para com a mãe. Imediatamente Orestes pede que os servos transportem para o interior da cabana o cadáver, pois sua mãe deverá estar chegando.

Quando os irmãos avistam Clitemnestra chegar, Orestes fraqueja: “Irmã, o que faremos? Dar morte a nossa mãe?”Responde-lhe a fria Electra: “Por acaso tens pena ao vê-la?” “Como poderei matar aquela a quem devo a vida e meu primeiro alimento?” Electra: “Da mesma forma que ela matou nosso pai.” Orestes se desespera com o deus: “Por que Apolo me ordenaste a prática de ato de tamanha loucura?... Irmã, ferir de morte nossa mãe é uma grande impiedade!... Serei culpado de matricídio, eu que nenhum crime até hoje pratiquei.” Electra é implacável: “Se não a matares serás um infame!” Orestes chega a duvidar do oráculo que lhe ordenara o crime, porem Electra lhe diz que sua vacilação aproxima-se da pusilaminidade.

Sai Orestes, entra Clitemnestra e o coro. Clitemnestra exige que as escravas a tomem pelas mãos ao descer do carro, para que seus pés não toquem a terra. “Quanto a mim, recebi estas cativa troianas, em troca da filha que perdi ( Ifigênia, sacrificada por Agamemnon). Foi insuficiente a dádiva, mas tem seu valor”. A prepotência é marca registrada dos poderosos e a causa de sua perda de medida e desgraça. Electra exige que a mãe se explique por a ter expulsado do palácio, obrigando-a a levar uma vida de escrava, ou seja, de trabalho. Busca, agressivamente, criar o clímax para a execução. Clitemnestra vai no passado buscar as causas que a levaram a executar Agamemnon, e elenca em primeiro lugar o sacrifício de Ifigênia e, em segundo lugar, a concubina que trouxera da conquista de Troia, Cassandra. “Se um marido despreza o leito conjugal é justo que a esposa o imite, angariando um amante!”

Responde-lhe Electra: “Que uma mulher deve em tudo ceder ao marido”. Ah, a ambiguidade dos humanos, tão bem explorada por Eurípedes! Clitemnestra, assassina, é mais autêntica, mais clara, menos falsa que a filha que a quer matar. A inveja conduz Electra a ver na elegância e na beleza da mãe, que sempre a cultivara na ausência por dez anos do marido do lar, uma afronta ao pai de tantas aventuras. Mas na conclusão de sua fala não deixa dúvidas do que moverá o punhal assassino. “Se meu pai matou Ifigênia, que culpa temos eu e Orestes, para que nos tenhas atirado à miséria?” Clitemnestra se diz arrependida de diversos atos que praticara, dentre estes o estado de penúria em que a filha fora relegada. Mas para Electra já não há tempo para perdão e ela desafia a mãe a chamar de volta ao lar o filho Orestes. A mãe confessa seu medo de fazê-lo. Electra convida-a , então, a entrar na cabana e sacrificar em homenagem ao filho que inventara haver tido. Na verdade, a sacrificada será Clitemnestra. Sai Clitemnestra e Electra fala ao coro: “Tu te casarás na mansão sombria de Hades com o mesmo com quem já vivias na terra. Eis a gratidão que eu te devo: ás de sofrer o castigo que mereces pelo assassinato de meu pai”. Ouve-se a voz de Clitemnestra: “Meus filhos, não mateis vossa mãe!” Os irmãos saem em seguida manchados com o sangue materno. O coro diz: “ Não haverá no mundo progênie mais desgraçada que a de Tântalo”. “ Vede que coisas sangrentas e abomináveis! Estes dois cadáveres, que jazem por terra, feridos por minha mão, como paga pelo que eu tenho sofrido”. Electra junta-se ao irmão e diz: “Tudo isto é muito doloroso e fui eu a causadora…pobre mãe que tombaste odiosamente e, ainda mais, ferida pelos teus dois filhos. Mas tu sofreste a expiação devida pelo assassinato de nosso pai.” Orestes clama a Apolo e contra sua ordem de vingança, pois tem medo. “Agora dize-me, para onde irei, quem quererá receber-me, ou sequer contemplar-me, eu que matei minha mãe?” Electra também se declara compungida ao que Orestes lhe retruca: “Teu coração muda como o vento…Pensas agora em sentimentos de piedade, mas foste tu que exigiste coisas terríveis contrariando as ponderações de teu irmão… e viste ela gritar acariciando meu rosto: meu filho, eu te suplico..e o punhal me caiu das mãos. Foi preciso que eu vendasse meus olhos quando a apunhalei”. Electra: “Sim eu te impeli e puz força em tua mão…( e para o cadáver a seus pés)Eis-te coberta! Tu a quem ao mesmo tempo amávamos e detestávamos, tu, causadora de tremendas desgraças em nossa família, eis-te coberta com o teu manto”. Surgem os Dióscuros, os deuses Cástor e Pólux, irmãos por parte de mãe de Clitemnestra. Declaram que o castigo de Clitemnestra fora justo, mas que Orestes agira mal. “Apolo, embora sábio, não te aconselhou a sabedoria. Agora cumpre os desígnos de Zeus: Dá tua irmã como esposa a Pílades e ele a levará imediatamente para sua terra. Tu partirás de Argos, pois não é lícito aqui viveres, pois as Erínias terríveis te perseguiriam e terias que vagar sem rumo. Vai a Atenas e posterga-te diante de Palas… lá deverás seres julgado pelo crime; mas os sulfrágios pró e contra serão iguais e assim estarás salvo da condenação à morte… para o futuro será lei que o acusado seja beneficiado sempre que os votos se dividirem em partes iguais. Tu deverás habitar as terras da Arcádia e jamais retornar”. A seguir os Dióscuros proclamam que os argivos darão sepultura aso mortos e Menelau e Helena retornarão e assumirão a cidade. Também dizem que a guerra de Troia foi provocada por Zeus, desejoso de causar a discódia e o morticínio entre os homens, pois ele produzira uma imagem de Helena, a que fugira com Páris e motivara a guerra de Troia; que a verdadeira Helena estava no Egito aguardando por Menelau que retornava a Argos. Os Dióscuros concluem que a fatalidade e a imprudência de Apolo foram responsáveis pelos fatos. “Que vossos crimes, vossos destinos são comuns… a culpa de vossos pais os arrastaram a esta situação”. “Que ninguem cultive a iniquidade ou ouse navegar com a perfídia no coração”. Como vimos, o deus “ex-machine” de Eurípedes concluiu a história de tal modo que a cobiça de Electra ficou insatisfeita, pois da herança paterna pela qual tanto ansiava nada abocanhou. Casada com um Trabalhador pobre foi pelos deuses obrigada a casar-se com o companheiro que acompanhava Orestes na desdita. Tão pouco Orestes pode alcançar a herança paterna. A ele coube-lhe uma fuga para Atenas, para ser julgado pelo crime de sangue, mas com resultado já garantido de absolvição graças à interferência dos deuses. Foi-lhe vedada a volta assim como a posse de bens. A história do duplo de Helena, introduzida por Eurípedes, parece-nos estranha à primeira vista, mas devemos levar em consideração que Electra é parte de uma Trilogia, tal qual a Orestíada de Esquilo, apenas que, ao contrário desta, as tragédias- pares de Electra de autoria de Eurípedes, perderam-se nos tempos.

As Bacantes



Eurípedes em vida não viu encenada uma de suas últimas tragédias, no dizer de muitos, sua maior obra-prima. Dada a riqueza e a complexidade da obra, assim como a densidade do texto, sublinhou Vernant: “ela é um documento incomparável para explicitar o que deve ter sido a experiência religiosa do deus, que mais que nenhum outro, assume no panteão grego as funções da divindade mascarada”. Nesta tragédia, ao contrário de todas as outras, onde os deuses intervém, mas os papéis principais estão reservados aos heróis, em As Bacantes, Dionísio tem o papel principal. “Tudo se passa como se o deus, ao mesmo tempo em que aparece no palco, também agisse nos bastidores, atando os fios da intriga e maquinando seu desfecho”.

Dionísio se apresenta tanto como deus, quanto como um estrangeiro ( assim como o é seu culto para o ateniense), um lindo jovem de modos afeminados, ou melhor, transexual, cuja máscara revela sempre o sorrizo, tal qual as máscaras do coro de Mênades lídias, suas fiéis seguidoras.

Ele será tanto o deus ou um ser, que ao mesmo tempo parece que não está onde deveria estar, mas que também se encontra muito além, e ao mesmo tempo, dentro de cada pessoa e em nenhum lugar. Na poesia de Nietzsche: “Sob o encanto do dionisíaco, não só os laços entre os homens voltam a estreitar-se: também a natureza alienada, inimiga e subjulgada, volta a celebrar a sua festa de reconciliação com seu filho pródigo, o homem. Espontaneamente, a terra oferce suas dádivas, e as feras da montanha e dos desertos aproximam-se lentamente.”

Em As Bacantes, o teatrólogo, no final de sua vida, como que tocado pela graça, “teria querido exaltar essa forma mais que humana de sabedoria que, contrariamente ao saber e à razão orgulhosa dos sofistas, traz o abandono do êxtase divino, a loucura mística do deus da possessão bem-aventurada”, ainda no dizer de Vernant.

 

 

O primeiro cenário de As Bacantes é a fachada do palácio de Tebas, cujo rei é Penteu. Em frente ao palácio está erguido o túmulo de Sêmele, filha de Cádmo, o fundador da cidade. Sêmele, por sua vez, foi fecundada por um raio de Zeus e deu à luz o deus Dionísio, antes de cair morta, fulminada por Hera, a de grandes ciúmes. Seu filho, sequestrado por Zeus, é criado fora da Grécia, “crescendo” nos países bárbaros.

Dionísio chega à cidade de seu nascimento na forma de um mortal, com roupas típicas da Ásia e a cabeça coberta por abundante cabeleira loira. E o faz acompanhado de suas fiéis Mênades, as mulheres asiáticas que agrupam-se no canto da orquestra e que comporão o Coro da tragédia.

No Prólogo, é o próprio recém-chegado quem conta a sua história. Diz haver deixado a Lídia, a Frígia, a terra dos Bactrianos, dos Medos, a Arábia e todas as terras onde os gregos misturam-se aos bárbaros, que considera como províncias já conquistadas para seus mistérios; que agora adentra à Grécia continental, e Tebas será a primeira cidade a conquistará.

Mas Tebas, simbolizando os gregos, é a primeira cidade a regir e erguer-se contra os clamores deste deus, tão na contra-mão da antiga e patriarcal regiosidade cívico- familiar. Detalha sua primeira ação: “Foram justamente as irmãs de minha mãe (Sêmele) que afirmaram não ser Dionísio filho de Zeus… por isso eu as expulsei dos palácios e lancei sobre elas, agora Bacantes, o aguilhão da loucura. Estão nas montanhas, mergulhadas no delírio. Obriguei-as também a usar as insígnias de meus mistérios orgíacos, a todas as mulheres de Cadméia (Tebas), que enlouquecidas estão fora de suas casas, vivendo a céu aberto, no meio das rochas. De boa ou má vontade esta cidade tem que aprender, pois não está iniciada em meus bacanais. Cadmo entregou o cetro a Penteu, filho de sua filha e Penteu luta contra mim… vou mostrar-lhes, a ele e a todos os tebanos (homens) que sou deus por nascimento. Depois, quando tudo estiver em ordem, visitarei outras cidades afim de revelar-me… Se levada pela cólera, a cidade pegar em armas para trazer de volta as Bacantes, eu estarei à frente das Mênades para dar-lhes batalha. Por isso assumi a forma humana”. E referindo-se às mulheres do coro: “Pegai os pandeiros, minha invenção e dançai ao redor do palácio de Penteu, para que nos vejam. Entretanto irei encontra-me com a Bacantes nas montanhas”. 

Eurípedes traz para a tragédia a introdução do novo culto, estrangeiro e bárbaro, à primeira cidade grega cuja religião oficial, assim como os homens e as mulheres o repelem. Devemos, entretanto, levar em consideração que se o culto a Dionísio é estranho à liturgia oficial, o deus se declara nascido de Sêmele, portanto, ele mesmo é grego de nascimento. Que em todos os recantos pelos quais passara fora vitorioso e que as mulheres de Tebas, as primeiras que lhe resistiram, foram enlouquecidas, transformadas em Bacantes, abandonando seus lares para juntarem-se à natureza e à parte selvagem de seu culto. Temos que diferenciar aqui Bacantes de Mênades, ambas seguidoras do deus, mas, enquanto umas foram enlouquecidas por lhe resistirem, as outras, que se entregaram aos deus sem resistência, encorporaram-no em si mesmas, e sentem-se libertas, seguindo-o por toda parte.

Mas passemos ao Párodo, com o Coro de mulheres Lídias, as Mênades. Primeiro entoam o grito de Evoé, celebrando Brômio, o Dionísio, o deus máscara de muitos nomes. “Ditoso o mortal que celebra Dionísio, trazei o deus da Frígia para as florescentes cidades gregas!...Oh Tebas, coroa-te de hera, enche-te de flores, cobre-te de teixo de magníficos frutos, prepara-te para as Bacanais, vestindo-te com folhas de carvalho e abeto; enfeita-te com flocos de lã…feliz o que, nos montes, depois da corrida dos tíasos ( ritos), se deixa cair no chão…que vai à caça do bode e o degola para beber o sangue e lhe comer a carne crua…pela terra corre o leite, o vinho, o mel…ao som dos pandeiros e da flauta frígia”.

O reencontro com a natureza, o selvagem como grito libertador, a homenagem a um deus que tanto pode proporcionar a liberdade e a libertação dos instintos quanto a loucura. Um deus que se faz cercar não por sacerdotes, mas por mulheres liberadas que celebram a alegria de viver.

Entram na cena Tirésias e Cádmo, ambos velhos. Tirésias, o cego, está coroado com as heras, vestido com pele de cabrito e carregando um tirso na mão. Cádmo o saúda como homem sapiente, voz da sabedoria. Os dois se sentem rejuvenescidos pela presença do deus que está em todo lado e em nenhum ao mesmo tempo. Querem correr para participar dos tíasos. “Somos os únicos sensatos nesta cidade…o deus quer homenagens de todos igualmente e não estabelece categorias entre os seus adoradores”. O deus que tudo arrebata não escolhe seus adeptos. Eles vêem de todas as camadas do povo, dos homens e das mulheres, de todas as idades.

Chega à cena Penteu, o rei de Tebas, em extrema contrariedade. “Dizem-me que as mulheres abandonaram as casas a pretexto das Bacanais e andam a correr pelo campo, prestando culto a um novo deus, um certo Dionísio; no meio dos ritos estão vasos cheios de vinho; aqui e acolá as mulheres ocultam-se em sítios solitários onde se entregam aos homens…a todas que pude capturar atei-lhes as mãos e as coloquei sob grilhões e guarda. As que fugiram irei persegui-las, dentre elas minha mãe, Ágave e minha tia, Prende-las-ei e acabarei com suas criminosas Bacanais. Dizem até que chegou à cidade um estrangeiro charlatão, de trejeitos afeminados e encantador, com suas madeixas loiras, perfumadas. Ele quem as ensina os mistérios báquicos. Se eu o surpreender neste palácio arrancar-lhe-ei a cabeça. Ele se diz um deus.” E dirigindo-se ao pai, Cadmo, e a Tirésias: “Vejo que a velhice de ambos perde a razão, que ridículo…Tirésias fostes tu que o convenceste sobre a nova divindade para colheres novos lucros…Quando mulheres tomam parte de um festim onde jorra o vinho, nada existe de sagrado nessas orgias”.

Penteu é o defensor da antiga ordem, do patriarcado e a libertação a que as Bacantes se entregam ofendem-no. Simbolicamente retrata a dificuldade que o culto popular de Dionísio causou junto a religião tradicional nos seus primeiros tempos, até ser por ela incorporada. Responde-lhe o cego Tirésias: “Quando falta o bom senso ao homem audaz, poderoso e hábil nas palavras, ele torna-se um cidadão perigoso…Existem duas divindades que ocupam o primeiro lugar no coração dos homens. Uma é Demeter, ou a Terra, pois sustenta os mortais com alimentos e a outra, que vem competir com esta, é o filho de Sêmele. Ele descobriu o vinho que liberta os infelizes humanos de seus sofrimentos, embriagando-os com o nectar das videiras. O presente do deus é o sono, o esquecimento dos males de cada dia…Mas como o deus é tambem profeta, os seus arroubos, tal qual o seu delírio, possuem a força da profecia. Ele quando nos inebria com seu poder, revela-nos o futuro depois de nos ter enchido com sua fúria. …Acredita em mim, Penteu: não julgues que a violência tem autoridade sobre os homens. Seja sensato, acolhes o deus na cidade, colocas uma coroa na cabeça. Não será Dionísio que obrigará as mulheres a serem tomadas por Afrodite; é a natureza de cada uma que lhes impõe a castidade ou não; mesmo nas Bacanais a mulher casta não se deixa corromper”.O Corifeu das Mênades: “Velho, prestas honra a Apolo, pois ao homenageares Brômio, revelas sabedoria.”

Importante analogia: os gregos souberam, tal qual Tirésias na tragédia, associar a natureza e o selvagem, à liberação do sub-consciente, aos preceitos apolíneos de moderação, do civilizatório. Cádmo lembra ao filho o destino que tivera seu primo Actéon, que cometera a desmedida de espiar a nudez de Artemis e morrera destroçado pelos seus próprios cães caçadores, que o confundiram com um cervo, obra da deusa. Actéon invadira, inadvertidamente, as fronteiras do selvagem e a fala do pai antecipa, agora, o futuro reservado a Penteu. Penteu reage mandando destruir a casa de Tirésias e ordena aos guardas que prendam o estrangeiro e já o condena à morte, antes mesmo de conhecê-lo, tal o tamanho de sua desmedida. Tirésias conclui antes de se afastar com Cádmo: “Até há pouco não passavas de um insensato, mas agora enlouqueceste de vez.”

O coro das Mênades:“Ciência não é sabedoria, nem a sabedoria comporta os sentimentos de um simples mortal. A vida é breve. Por que vivermos o dia de hoje com demasiada ambição? São assim os insensatos e os homens de mau conselho… Esta divindade, Dionísio, oferece igualmente aos ricos e aos pobres a delícia do vinho que afasta o desgosto, assim como detesta quem não se preocupa, exclusivamente, em passar os dias e as noites suaves de sua existência na alegria de viver”.

Alguns servos entram trazendo Dionísio amarrado, apresentando-o a Penteu. Dizem-lhe que o estrangeiro não oferecera nenhuma resistência, que lhes estendera docilmente as mãos para serem amarradas; por outro lado comunicam o inusitado: as Bacantes presas por Penteu e que estavam sob grilhões, simplesmente deles se desfizeram sem esforço, fugiram da prisão e voltaram para as florestas entoando o nome do deus Brômio. O estrangeiro, quando interrogado por Penteu, identica-se como um emissário do deus; diz ao rei que pessoalmente vira o deus e que ele o havia introduzido nas Orgias. Penteu quer conhece-lhes o significado místico ao que o estrangeiro responde que isto somente é possível quando se é iniciado nos mistérios báquicos.

Pergunta-lhe Penteu: “Que figura tinha esse deus que dizes teres visto?”. Responde-lhe o próprio deus: “A que lhe era própria”. Penteu diz ao deus- máscara que ele será castigado pelas ambiguidades que propositadamente diz. Justamente ao próprio deus da ambiguidade, pois não é dado ao rei, em sua loucura, reconhecê-lo na figura que interroga. Penteu decide acorrentá-lo e fechá-lo no cárcere. “O deus me libertará quando eu quizer… ele agora, está aqui mesmo.” Mas a cegueira da ate impede Penteu de decifrar o enígma. Manda que o acorrentem e Dionísio lhe diz: “Não sabes o que preparas para ti mesmo; não sabes o que fazes, nem o que és… o teu nome prenuncia uma sorte funesta ( penthos= luto)”.

O cenário agora é o da floresta e da montanha. Uma voz faz-se ouvir: “Eia Bacantes, escutai a minha voz”. Em seguida os Corifeus anunciam que o solo estremece, que blocos de mármore são arrancados do palácio de Penteu. Dionísio abandona o palácio e as Mênades prostam-se ao chão à sua passagem, mas a Dionísio não lhe convém as mesmas homenagens e submissão tradicionais que aos deuses do Olimpo estão reservadas. Ele somente se contenta com a posse total de seus seguidores.”Levantai-vos e expulsai de vossa carne o arrepio do medo”! “Supondo agrilhoar-me, nem sequer me prendeu ou me tocou. Penteu viu diante de si um touro na mesma cavalariça em que me prendera; incontinente ele laçou o touro e eu, ao seu lado o observava. De repente fiz-me Dionísio, abalei-lhe a casa e o fiz crer que o palácio ardia em chamas; Penteu arde em sua loucura querendo que todos seus servos apaguem as chamas que só ele vê….Óh ousadia de um simples mortal que se atreve a lutar contra um deus!”Isto relata Brômio a suas seguidoras.

Chega Penteu fora de si, em busca do estrangeiro e o encontra. Um mensageiro é portador de notícias sobre os atos da Bacantes nas montanhas, mas receia dar seus relatos, pois o rei é tomado por cóleras repentinas, próprias do seu caráter “ irascível e tirânico”. De qualquer forma relata os prodígios que assitira: “As Bacantes despertam e se colocam de pé num espetáculo de maravilhosa decência, tanto as jovens, quanto as idosas e as virgens ainda livres do jugo masculino… Algumas que ainda há pouco deram à luz, com as tetas inchadas de leite, amamentam um cabrito ou lobinhos selvagens… uma agarra um tirso, bate num rochedo e logo brota uma água límpida como o orvalho; outra fere o solo e surge uma nascente de vinho…outra ainda torse seu tirso e dele escorre o mel…Juntamente com as Bacantes,aos gritos de Evoé, toda a floresta, a montanha e os animais são colhidos pelo delírio báquico…” “Para agradar ao rei, decidimos aprisionar a líder das Bacantes, sua mãe Ágave. Escondêmo-nos e quando tentamos aprisioná-la quase fomos destroçados. Ágave gritava: “Minhas cadelas ( símbolo para os antigos da fúria e da raiva) , estamos sendo perseguidas por homens. Agarrem seus tirsos”… fugimos mas ainda pudemos ver as Bacantes agarrarem uma vaca pelos chifres e transformar os vitelos em farrapos; alguns touros que avançam contra elas também foram facilmente abatidos…”

A reação de Penteu é a da repressão. Ordena que os hoplitas reunam-se e marchem contra as Bacantes. O estrangeiro novamente o aconselha a tranquilizar-se, pois não poderá vencer o deus e verá os escudos de bronze debandarem frente aos tirsos empunhados pelas Bacantes. Mas Dionísio já se imiscuiu no inconsciente de Penteu; já sabe que, por traz da exaltação, esconde-se a curiosidade do rei para ver os prodígios por todos contados; que esta ansiedade supera qualquer cautela, pois Penteu já se encontra sobre a possessão do deus. “Gostarias de ver um espetáculo, mesmo que te fosse desagradável?” Inquere o estrangeiro. “Sim, responde o rei, eu ficaria escondido”. “Eu serei o teu guia”, responde o deus. “Mas veste uma túnica de linho, solte os cabelos e ponhas uma mitra na cabeça, carregues um tirso e uma pele de cabra”. Penteu se dá conta do ridículo a que se propõe, tornando-se semelhante a uma mulher, a uma Bacante. “É única forma de te disfarçares, poi receio que te matem se descobrirem que és um homem”.

O rei, o tirano, o moralista que ofendeu o novo deus e o rito que liberta as mulheres e homens, ridiculariza-se sob a posse de Dionísio, para poder conhecer aquilo que lhe é vedado, aquilo “só é permitido aos iniciados”. O deus faz com ele o mesmo que realizara com as mulheres que lhe resistiram ao entrar em Tebas, tira-lhe a razão. Afinal, quando os deuses optam por destruir os homens, primeiro os enlouquecem.

Diz o Coro: “Pela origem e pela onipotência, é para os homens o deus mais terrível e mais benígno.” Ainda: “O que é a sabedoria? Que dom mais belo oferecem os deuses aos mortais do que impor a mão vitoriosa sobre a cabeça dos inimigos? O que é belo é sempre agradável…Feliz quem escapa à fúria do mar e alcança o porto! Feliz quem triunfa das provocações…Chamo feliz àquele cuja vida decorre, dia após dia, na felicidade”. Eurípides retoma o tema explorado em outras de suas tragédias, o tratamento humano para com os inimigos, uma das fontes de felicidade para o ser vivente. O que é o belo? Não mais a morte em batalhas, o kalos thanatoi, tão pouco o kallos kagatoi , o fazer-se belo; o belo é o que agrada aos sentidos, ao espírito, feliz de quem triunfa das provocações!

Dionísio com uma cabeça de touro e depois Peuteu, saem do palácio. Penteu está ridiculamente trajado, assemelha-se a uma Mênade. “Julgo ver dois sois, duas Tebas, e tu, estrangeiro, te transformaste em um touro?”. Está embriagado, possuído pelo deus. “O deus reconcilou-se conosco e vês aquilo que deves ver”, diz o estrangeiro. O deus lhe diz: “Outro te conduzirá à cidade novamente”. Penteu:“Alcançarei o que me é devido”. Saem para as montanhas. O Coro prenuncia o desenlace ao alertar às Bacantes para a chegada de seu caçador, que tornar-se-á sua caça e complementa: “Quando se possui um espírito modesto, quando não se procuram ruins intentos contra os deuses e não se ultrapassa a medida humana, a vida corre sem tormentos…compraz-me rejeitar as leis humanas que sejam estranhas à justiça natural e adorar os deuses”.

Retorna um mensageiro, vindo do local da Bacantes, que dialoga com o Corifeu: “Penteu, o filho de Equion, já não existe”. Corifeu: “Óh, Bromio, é um deus poderoso!”. “Acaso te regozijas, mulher, com o infortúnio de meus senhores?”. Responde o Corifeu:”Sou estrangeira e cantarei Evoé como cantam os bárbaros. As cadeias já não causam medo.” O Mensageiro relata, então, o que se passara. Subiram a montanha ele, Penteu e o estrangeiro. “Chegamos a um ponto onde já se viam as Bacantes, mas o infeliz Penteu que nada enchergava, pediu ao estrangeiro ajuda para subir num abeto e do alto, observá-las. Como um prodígio o deus vergou a árvore e alojou o rei nos galhos superiores e retornou-a à posição original. O estrangeiro desaparece e uma voz se faz ouvir: “Mulheres, trago-vos aquele que ri de vós, como de mim e de minhas orgias. Vamos, vingai-vos!...As mulheres começam por atirar-lhe pedras, outras seus tirsos… o desgraçado está só, abandonado…Ágave comanda a derrubada do abeto e Penteu é atirado das alturas. Sua mãe é a primeira a iniciar o rito sangrento; Penteu arranca a mitra da cabeça e tenta identificar-se: “sou eu, seu filhinho”, mas Ágave com a boca a deitar espuma e os olhos a rebolarem terrivelmente, está possuída pelo deus e nada escuta. Arranca-lhe com força sobre-humana seu ombro e um braço; Ino rasga-lhe as carnes; Autonoe e o resto do bando o dilaceram…Então, a mãe apossa-se da cabeça do filho, espeta-a na ponta do tirso e carrega-a como troféu, como se a cabeça de um leão da montanha fosse.”

Nesse momento, vindo das montanhas, chega Ágave com o tirso e cabeça do filho espetada, e o Corifeu a cumprimenta, como sendo uma de suas companheiras, pela feliz caçada. Ágave em sua loucura quer encontrar seu filho Penteu para que ele tambem admire sua caça e conclama todos os habitantes de Tebas a fazê-lo. Entra Cádmo em uma maca, acompanhado por servos que conduzem os restos mortais de Penteu. A ele se dirige Ágave: “Pai, nada pode te dar mais orgulho do que ter gerado a mais valorosa filha entre os mortais…Trago em meus braços a fera que eu abati com a minha coragem para pendurá-lo no palácio”.

A loucura transtorna o consciente, oculta a verdade; ela nada recordará quando recuperar os sentidos sobre as ações realizadas, durante a mania desencadea pela Lissa, regida pelo deus. Responde-lhe o pai: “Que dor insuportável, que sacrifício oferecestes aos deuses! E vens convidar a mim e aos tebanos para o banquete… o deus feriu-nos com demasiada crueldade, nós que somos do seu próprio sangue… quando tiverdes consciência do que fizertes, como será terrível a vossa dor. Antes permaneceres no estado em te encontras, teríeis a ilusão de serdes felizes”.

Em seguida Cádmo lhe diz para que a filha levante os olhos para o céu e por influência da luz da verdade ela recobra os sentidos. A mãe descobre que em sua mão trás a cabeça do próprio filho e não a de um leão.

Cádmo: “Penteu morreu no mesmo lugar em que, certo dia, Acteon foi dilacerado pelos cães.”Elas, as Bacantes, as cadelas tomadas por Brômio, haviam substituído os cães apropriados por Artemis. No seu desespero, Ágave é ampara pelo pai que lhe diz que o que a perdera fora não haver reconhecido o deus quando ele adentrara, festivamente, na cidade. Que a culpa dela e de Penteu tinham sido as mesmas. E a desgraça se abateu sobre ambos.

Neste momento, deus ex-machine, Eurípedes introduz Dionísio em cena. O deus sentencia o exílio para Cádmo, que será transformado em dragão e sua esposa, a Harmonia, serpente; no final das suas aventuras, serão ambos transportados para a Ilha dos Bem-Aventurados, lugar po's-morte destinado aos herois. Ágave também, juntamente com suas irmãs serão condenadas ao ostracismo. Elas foram apenas instrumentos de vingança do deus, sem lhe pertencerem, e com ele não prosseguirão. Ela se despede das outras Bacantes: “Levai-me guias até junto de minhas irmãs; iremos até onde o Cíteron ( a montanha em que o culto se realizara) não nos possa ver e nem nós a ele. Que a recordação do tirso não fique apegada a mim. Divitam-se com ele outras Bacantes”.

Plenitude do êxtase, do entusiasmo, da possessão, alegria da festa, prazer do amor, felicidade do cotidiano, Dionísio pode trazer tudo isto se os homens souberem acolhê-lo, assim como pode trazer infelicidade e a destuição se renegado. De acordo ainda com Vernant, Dionísio, além do bem e do mal, suave ou terrivelmente, brinca de fazer surgir dentro de nós a figura múltipla dos outros eus. E a multiplicidade dos eus se fez presente, graças ao deus- máscara, em todos os que o negaram.

Alceste



A primeira tragédia conhecida de Eurípedes, Alceste, eleva a mulher ao grau supremo de sacrifício por amor. E este sacrifício não decorre de uma decisão súbita, inesperada, de momento. Mas é determinada por uma decisão madura da mulher que ama e, principalmente, da mãe que de qualquer sacrifício é capaz, o que coloca Alceste como uma heroína acima da covardia dos velhos pais de Admeto e do próprio marido. Tânatus não voltaria de mãos vazias de sua visita ao lar de Admeto. Alceste ao se oferecer para trocar sua vida pela dele apenas impõe uma condição: que o viúvo não tome nova esposa, como forma de proteger seus filhos. O mesmo autor de Medéia e Fedra, é, no dizer de Lasky, o “autor para quem precisamente na mulher se abrem todas as grandezas e misérias da alma humana”.

Para Platão os próprios deuses consideraram tão belo o auto-sacrifício de Alceste que lhe permitiram retornar do reino de Hades, “pois os numes honraram nela a vitude máxima do amor”. Esta é uma tragédia ímpar em Eurípedes, dado que, em seu final, as coisas se harmonizam por ação de um deus “ex-machine”, representado por Hércules, e todos retornam a uma vida feliz. Por força do amor!

A despedida de Alceste e Admeto, quando a mulher assumirá o lugar do marido no reino de Hades.  


 

 

O cenário de Alceste é a frente do palácio de Admeto, rei de Féres, na Tessália.

O Prólogo se dá com um relato feito pelo deus Apolo e, na continuidade, por seu colóquio com Tânatos. Apolo conta-nos que se rebelara contra a ação de Zeus, que fulminara com um raio seu filho Esculápio,  que graças às suas curas que por ele realizadas, o reino de Hades estava se esvaziando. Dado que o deus Apolo ocorrera em uma desmedida sacrificando os Cíclopes, o senhor do Olímpo condenara-o a servir Admeto, um simples mortal.

Durante este serviço, as Parcas, o Destino, haviam enviado Tânatos para conduzir Admeto, morto, para o reino de Hades. Apolo, que tornara-se amigo de seu patrão consegue ludibriá-las, de tal forma que Admeto continuaria vivo se alguém, de livre e espontânea vontade, quizesse morrer por ele. Mas nenhum dentre os amigos, ou mesmos seus velhos pais, consentiram em trocar sua vida pela do rei. Somente sua esposa, Alceste, no dia de suas núpcias, aceitara o sacrifício. Este é o testemunho dado por Apolo quando, passado o tempo, na data marcada, chega a Féres o próprio Tânatos, com a missão de levar Alceste, a substituta.

Tânatos acusa o deus de tentar privar o reino de Hades dos seus direitos, retomando indiretamente a temática de Esculápio. Apolo tenta ainda convencê-lo a levar primeiro “aqueles que tanto tardam a morrer”, que “se Alceste, por fim, tivesse que morrer, o fosse mais idosa, pois teria um funeral ainda mais suntuoso”. Tânatos reage: “Apolo o que propões favorece os ricos tão somente, pois os abastados comprariam o direito de morrer apenas quando anciãos”. O emissário da morte deixa claro que, perante ele, não há privilégios sociais. Apolo retira-se, não sem antes prever que está chegando alguém que arrebatará à força Alceste de Tânatos. De sua parte, o irmão gêmeo de Hypnos entra no palácio para colher sua alma.

Apresenta-se o Coro composto pelos anciãos de Féres. Entra a Serva de Alceste, pois é chegado o dia de sua morte, uma morte com data definida: “Que outra mulher faria mais por seu marido do que se oferecer para morrer por ele?...Vestiu-se ricamente e implorou aos deuses que dessem um destino mais feliz aos filhos, para que não morressem como a mãe, antes do tempo dado pelo seu Destino…Ela agarra-se ao leito nupcial e molha-o com copiosas lágrimas…E Admeto sofre tamanha dor que jamais a poderá esquecer.” Este é o relato que faz ao Coro.

Porém, Alceste deseja ver o céu pela última vez e sai do palácio em companhia do marido. O Coro: “Nunca direi que o himeneu dê mais venturas do que dores; a julgar pelos dramas já passados e pelo destino deste rei, que tendo perdido a maior das esposas, arrastará uma vida que já não é mais viver”. Alceste a Admeto: “Arrastam-me já para a mansão dos mortos. É Hades, ele mesmo com suas asas e olhos horrendos cercados de negras sobrancelhas…Uma noite escura cai sobre meus olhos…Admeto, vês a que extremos eu cheguei, amando-te sinceramente e dando minha vida para que possas olhar a luz…Traíram-te teu pai e tua mãe pois a idade avançada lhes permitiria uma morte gloriosa e eu continuaria a viver e tu não sofrerias com minha morte…Quero uma graça em troca: tu amas a nossos filhos tanto quanto eu; que eles sejam os donos do lar! Não lhes imponha uma madrasta, que, impelida pelo ciúmes, maltrataria estas pobres crianças. Não faças tal coisa! A madrasta que sucede a esposa é inimiga dos filhos do primeiro matrimônio e em nada inferior a uma víbora! Tu tens a glória de teres tido a mais amorosa das esposas e vós, queridos filhos, a mais carinhosa das mães. ”

Admeto compromete-se a que, “tendo-te possuído em vida, continuarei a considerar-te minha esposa depois da morte e nenhuma outra mulher me chamará de marido….Não quero mais banquetes, nem festas animadas para os amigos, nem coroas floridas, nem a flauta líbia, pois tu levarás todo o encanto de minha vida… E visitando-me em sonhos tu me trarás conforto à minha viuvez. Se eu tivesse a voz e inspiração de Orfeu, tentaria acalmar a fúria de Perséfones e de seu marido, nada me impediria de tentar retirar-te do Hades, nem Cérbero de muitas cabeças, nem Caronte, o timoneiro das almas.”

Saem do palácio os filhos do casal e Alceste morre. Admeto confessa que de a muito esperava este golpe (desde o dia de seu casamento, quando Alceste ofereceu sua vida pela do amado) e sofria por ele. Ordena todas as honras fúnebres e sai, com os filhos, conduzindo o corpo daquela que irá morrer.

Permanece em cena o Coro e entra Hércules. Está de passagem por Féres, seguindo para um novo trabalho civilizatório: retirar os cavalos comedores de carne humana criados por Diomedes, na Trácia. O Coro alerta-o sobre os riscos desta empreitada, ao que o herói responde:”Jamais o filho de Alcmena tremerá diante de seus inimigos”.

Admeto, em luto, recepciona-o. Hércules interroga-o sobre quem morreu e Admeto relata-lhe que é o dia em que Alceste deverá morrer, já sendo do conhecimento de Hércules que ela trocara-se sua vida pela do esposo. “Não estejas a lamentar prematuramente a morte”. Admeto contexta-lhe: “Quem deve morrer já está morto; e quem está morto já não existe.” Ao que lhe responde o visitante: “No entanto, ser e não ser são coisas muito diferentes”. Mas Admeto desconversa para não entristecer seu hóspede, que em tão má hora o viera visitar e afirma-lhe que seu luto deve-se à morte de uma mulher, que não pertence à sua família, mas que lhe é muito querida. Hércules tenta partir, mas a cortezia de Admeto e a lei da hospitalidade não lhe permitem.

A ala de hóspedes é distante do local dos prantos e para lá o herói é conduzido pelos servos, onde um banquete lhe é servido. Chega Féres, o pai de Admeto, para prantear a morta. O desprezo do filho para com o pai é insustentável, dada a covardia de ambos em enfrentar a morte. Diz-lhe Admeto: “Não mais considero ter pai e mãe. Tu, em idade tão avançada não tiveste a coragem de morrer pelo teu filho, mas deixaste esta honra a uma mulher, a uma estrangeira…Mentem os velhos que a cada momento invocam a morte queixando-se da velhice e da longa duração da vida; pois se a morte se aproxima, ninguém quer morrer, e a velhice deixa de ser um doloroso fardo!” Responde-lhe o pai, no mesmo tom: “Dei-te a vida e te eduquei para que fosses, depois de mim, o chefe de meu patrimônio; mas nunca me obriguei a morrer em teu lugar! Feliz ou não, cada um cumpre o seu destino!...Tu, que te debateste vergonhosamente perante da morte, tu vives, mas às custas de tua esposa. E agora censuras a minha covardia, tu, infame, suplantado em coragem por uma mulher, que se deixou morrer por ti, belo rapaz! Descobriste uma maneira de evitar a morte, basta que convenças a que cada nova esposa que morra por ti.” Admeto: “Mas como a velhice é despudorada”. Féres: “A tua mulher não foi despudorada, mas insensata…Amortalhas a tua mulher de quem fostes o matador…terás, porém, que prestar contas aos parentes dela”.

Depois que Admeto ordena que o corpo seja conduzido ao túmulo, o Coro chora pela melhor das mulheres e a mais generosa das esposas. Saem Féres e Admeto e entra um Servo e, posteriormente Hércules. O Servo relata a alegria de Hércules no banquete servido e o vinho bebido, em total dissonância com o clima funéreo da casa. O visitante ao encontrá-lo tão sério o recrimina, pois: “Todos os homens são condenados à morte, e não há um só que possa assegurar estar vivo amanhã…Convencido destas verdades cumpre viver a vida, que o demais fique por conta do Destino…Visto que somos mortais, convém que nos conformemos com as coisas naturais. A vida para os homens austeros e tristes não é a verdadeira vida, mas um suplício e nada mais!” Em seguida o Servo participa-lhe da desgraça que é a morte de Alceste.

Hércules, o herói da força, demonstra não primar tanto pela inteligência, pois fora logrado por Admeto. De todos os modos, como recompensa pela hospitalidade recebida em tão difíceis circunstâncias, irá lutar com Tânatos para tirar-lhe das garras o corpo de Alceste. Caso não o consiga, dispõe-se a descer até o reino de Hades e retornarar com a defunta para a vida. Assumindo mais um trabalho, que somente um herói de seu porte conseguiria realizar, parte. Os versos seguintes são ocupados por Admeto lastimando-se junto com o Coro pela perda da esposa e pelos sofrimento dos filhos sem mãe, até o retorno do filho de Alcmena, conduzindo pela mão uma mulher velada por um manto.

Hércules pede ao rei que acolha aquela mulher enquanto ele deve partir para buscar os cavalos de Diomedes. Que todos saibam que ela é fruto não da sorte, mas ganha por ele como recompensa por um grande empreendimento realizado. Que Admeto não a toque até a sua volta. “Talvez um dia tu me agradeças pelo que fiz”. Mas o amigo implora que não lhe peça este favor, que não o torture com a presença de uma jovem que, pelo porte, tanto se assemelha à esposa morta. Hércules busca consolá-lo, pois “amar a uma morta é fonte perene de lágrimas”. Ao que Admeto retruca ter perdido a alegria do viver. Hércules o desafia: “Um novo casamento há de consolar-te um dia”. Admeto está firme na promessa feita a Alceste: “Mulher alguma partilhará de meu amor… que eu morra se algum dia a trair”. Hércules insiste em que aceite a dádiva que lhe trouxera, pois um dia ainda o agradeceria por ela.

E insiste em que ele tome a desconhecida pela mão e conduza-a para dentro do palácio. Neste momento Hércules se aproxima e retirando o véu que encobria Alceste, diz que “jamais alguém ouse falar que o filho de Alcmena seja um hóspede ingrato…Contemple-a, veja se não é muito parecida com tua esposa. Para longe o luto e o desespero!”  A surpreza toma conta do rei, afinal, não seria um fantasma, uma aparição? “Não sou um invocador de almas”, fala Hércules. “Apoderei-me dela sustentando-a nos braços e impedindo Tânatos de tocá-la”.

“Mas por que razão Alceste, de retorno à vida, permanece muda e imóvel?” , pergunta o agitado esposo. Hércules: “Não te será possível, Admeto, ouvir a sua voz enquanto ela não for purificada de sua consagração às divindades subterrâneas, e somente no terceiro dia ela ressucitará. Mas faze-a entrar em tua casa, vamos, Admeto”.

O Coro: “Os acontecimentos que os deuses nos proporcionam têm diferentes formas de se manifestar e muita coisa acontece para além de nossos temores e suposições; muitas vezes o que se espera jamais ocorre, e o que nos assombra se realiza, mas com a ajuda dos deuses”.

 

Medéia



Medéia é o contra-ponto da inocência e dedicação ao amor de Alceste. Depois de Medéia e de Hipólito, diziam em Atenas que “Eurípides não gostava das mulheres”.

A presente tragédia foi apresentada ao público no auge da carreira do poeta, em um momento político delicado de degradação e questionamento dos valores cívicos e da própria democracia ateniense. Inspirada no mito dos argonautas, os pilotos da nau chamada Argos, que sob o comando de Jasão teve como missão navegar até os confins do mundo e, na Cólcita, roubar do pai da princesa Medéia o velocino de ouro.

Medéia, aquela que possui poderes demoníacos e mágicos, apaixona-se por Jasão, auxilia-o no roubo e sequestra o próprio irmão, para facilitar a fuga dos gregos. Quando o pai se aproxima na perseguição, ela não tem dúvidas em sacrificar o irmão para atrasá-lo e salvar-se com o amante.

Mas a política impede que Jasão retorne à sua terra, de Ilco. Por issso, busca refúgio em Corinto, onde viverá com Medéia e eles terão dois filhos. Passados dez anos, Jasão que é ambicioso, decide casar-se com a filha de Creonte, rei de Corinto e abandonar Medéia.

Medéia é a figura central da tragédia. Seu desespero de mulher traída e abandonada desencadeará uma fúria irracional, mas calculista dentro de incontida selvageria. Afinal, quem sacrificara a fortuna do pai e a vida de um irmãozinho pela paixão por um homem, com o mesmo denodo buscará na fúria a destruição de tudo o que for mais caro a Jasão, ou seja, sua noiva e seus filhos. E o fará calculadamente. Como já dissemos, em Eurípedes, as mulheres chegam aos extremos das virtudes e desumanização. Os homens por seu turno, perdem a aura de heróis. Jasão é pusilânime, suas propaladas virtudes são coberturas para o mais vil oportunismo político, que não poupam nem a companheira e nem mesmo os filhos. 

Medéia no ato de assassinar seus dois filhos como forma de punição a Jasão, que a abandonara por outra mulher.

 

No Prólogo de Medéia, a Ama da mesma faz uma peroração: de que os deuses jamais deveriam ter permitido que a nau de Jasão chegasse à Cólquida. Conta-nos o desenlace das filhas que assassinam Pélias, o pai de Medéia. Relata a traição de Jasão que abandona a mulher e os filhos para casar-se com a filha de Creonte, o rei de Corinto. Que Medéia jaz sem alimentar-se e nutre ódio pelos próprios filhos e que seu caráter violento não suportará o ultraje recebido, “pois é violenta, e quem incorre no seu ódio não fica livre da desgraça”.

O Instrutor dos filhos de Medéia, que os traz de volta ao lar, comenta que Creonte decidira pela expulsão da mãe e dos filhos de Jasão de Corinto, ao que a Ama pergunta se o pai concordara com isto. “Não será a primeira vez que alguém ame a si mesmo muito mais que ao outro, ou de um pai que, devido a um novo matrimônio, deixe de amar os filhos”, conclui o Instrutor. A Ama pede que as crianças entrem em casa e que evitem a própria mãe, “Que não fará Medéia presa das dores, esse coração implacável que respira ódio?”

Medéia em sua primeira fala complementa o comentário da Ama: “Como sofro! Ó execrados filhos de uma mãe funesta, pereçam com vossa mãe e morra toda a sua família”. A Ama tenta amainá-la na fúria materna: “Por que hão de expiar os filhos a falta dos pais? As almas dos tiranos são cruéis; como obedecem pouco e mandam muito, dificilmente depõem sua cólera. Melhor é habituarmo-nos a viver com igualdade”.

Entra em cena o Coro que é formado por mulheres coríntias, vizinhas do lar que fora de Jasão e Medéia. “Que clamor lança a desgraçada esposa? Que insaciável desejo do leito nupcial, óh insensata, apressa assim a hora de tua morte?...Se o teu marido anseia por novo leito, Zeus vingar-se-á por ti”. Mas o ultraje é mais forte que qualquer outro sentimento em Medéia. Seu desvario faz com que reze aos deuses pela morte do marido e da noiva, que lamente o abandono do pai e o assassinato do pequeno irmão, que agora julga vergonhosos. “Aquele a quem consagrei os meus preciosos bens tornou-se o pior dos homens…A desdita imprevista que me feriu, perdeu a minha alma e, privada da volúpia da vida, desejo morrer, amigas. Entre todos os que respiram, somos nós, as mulheres as mais miseráveis. Antes de mais nada, precisamos comprar um marido e aceitar um dono para nosso corpo…e o divórcio nunca é honroso para as mulheres e não nos cabe repudiar o mau marido”.

Eurípedes, não amava as mulheres? O grito de independência e libertação feminina faz-se ouvir, dois mil e seicentos anos atrás com a força de hoje em dia! Mas uma das essências das personagens trágicas é a sua ambiguidade; então, prossegue Medéia: “Pois se em tudo o mais a mulher é tímida e covarde para o combate, quando é ultrajada no leito nupcial não há alma mais cruel que a sua”.

Entra em cena Creonte, o rei de Corinto e comunica a Medéia sua decisão de expulsá-la da cidade junto com os seus filhos. O por que? O príncipe é sincero e direto: “Eu a temo, és astuta e hábil, ameaças por desgraçar aminha filha e o seu noivo”. Mas a astúcia de Medéia é superior à de Creonte e afrouxa-lhe a vontade, quando por suas súplicas consegue ainda um dia de prazo para que deixe a cidade.

Medéia quer vingança: “Pensam que eu teria palavras submissas se não tivesse em vista uma emboscada?...Insensato, poderia ter-me expulsado e todos os meus planos naufragariam, mas permitiu-me um dia, durante o qual farei morrer três dos meus inimigos: o pai, a jovem e o marido. Qual será minha arma?... O veneno, e, depois, precisarei de algum refúgio seguro. Que cidade me abrigará? …Nenhum de meus inimigos se alegrará impunemente com as dores que me distorcem a alma!.. És hábil, pois as mulheres são por natureza inaptas para o bem, mas as mais engenhosas artífices dos males!”

Uma vez urdido um plano de destruição dos inimigos, Medéia já não mais fala em se matar, preocupa-se com a fuga e um novo abrigo. Chega Jasão e se dirige à mulher rejeitada: “É graças às tuas palavras insensatas que te expulsam deste país, e não me importo, pois não paras de dizer que Jasão é o pior dos homens.” Medéia: “Salvei-te e a todos os Helenos que na nau Argos estavam…Abandonei meu pai e sua morada e matei Pélias, utilizando suas filhas. Livrei-te de todo o temor, covarde que eras. Vou falar-te como a um inimigo…para onde irei agora? Para a morada de meus pais que traí ao vir contigo? Para o reino de Pélias? Já ves que destino é o meu; sou odiosa para os meus familiares, pois por ti deles fiz meus inimigos”.

Jasão debita aos deuses seus êxitos na Cóquita e a Eros, que obrigara Medéia a salvá-lo. A ingratidão, a imoralidade dos ingratos, faz de Jasão um hipócrita. “Mas tivestes muitos benefícios, para começar que habitas a Hélade e não terras bárbaras…E que necessidade tens tu de filhos? Deixai-os que os integrarei em uma família com irmãos filhos da realeza…Aliás é por isso que contraio novas núpcias para engendrar para os meus filhos irmãos de origem real”.

Mente, casa-se pelo poder, para na velhice não sofrer agruras. Desmente-o Medéia. Jasão promete ajudá-la e aos filhos no desterro, ao que a mulher responde: “Nada aceitarei e nada me darás, pois os dons dos maus não trazem proveito algum”.

Parte Jasão e entra em cena Egeu, tal qual um deus “ex-machine”. O rei de Atenas, que sem conseguir gerar filhos estava de passagem, retornando do templo de Apolo, ouve de Medéia todas as suas desditas com Jasão, assim como a sua expulsão de Corinto. Ela implora-lhe que se apiede dela e lhe dê abrigo em Atenas. Promete-lhe filtros poderosos para curar-lhe da impotência, feiticeira famosa que é. Egeu, sem saber dos planos de vingança preparados por Medéia, jura pelos deuses dar-lhe abrigo e hospitalidade e segue o seu caminho.

Agora Medéia estabelece um plano concreto de ação, pois tem sua fuga assegurada. Com astúcia atrairá Jasão para sua arapuca. Confessa ao Coro que pedirá que os filhos permaneçam no país com o pai; enviará um presente à noiva como forma de ser grata pelo abrigo aos filhos, um lindo véu com coroa, com venenos que a matarão e a todos que a tocarem; que aos filhos também assassinará para que nenhuma família reste a Jasão.

O Coro implora para que ela respeite a lei dos mortais e que, pelo menos, não toque nos próprios filhos. Medéia: “Assim se destroçará mais cruelmente o coração de meu marido”. Coro: “Serás a mais desgraçada entre as mulheres”.

Retorna Jasão, a quem Medéia agora pede perdão pelas palavras que pronunciara. “Aplacou-se a minha cólera. Filhos saiam e venham reconciliar-se com seu pai, a paz entre nós reina e aplacou-se minha ira. Seu rosto se desfaz em prantos”. Mas as lágrimas que ela chora são de ódio, a decisão já fora tomada e Jasão é enredado: “Ages como uma mulher prudente…olharei por nossos filhos, falarei com Creonte para que não os expulse da cidade.” E Medéia pede aos filhos que levem à noiva de Jasão os presentes de núpcias, para que ela o ajude a convencer o pai.

Saem e após retorna o Instrutor que conduzira as crianças à morada real de Creonte. “Livre estão do desterro teus filhos, senhora. A noiva recebeu na própria mão seus presentes. Pobre Creusa, filha de Creonte, ainda demasiadamente jovem para entender até que ponto pode chegar o ódio de uma mulher ultrajada. Ela vestir-se-á de noiva, porém irá oferecer sua virgindade ao deus Hades.

Medéia chora mas pede que ele entre em casa com seus filhos. “Oh, que infeliz sou por culpa de meu orgulho! Oh filhos que eu criei em vão! É verdade que, pobre de mim, alimentei grandes esperanças de que me ampararíeis em minha velhice e que me enterrariam com vossas próprias mãos…Ai, por que olham para mim, filhos? Por que me sorriem com esse sorrizo supremo? Que farei? Não posso…Levarei desta terra meus filhos. Que necessidade tenho de castigar neles a infidelidade do pai, e de fazer-me a mim mesma tanto mal?” “Mas é absolutamente necessário que morram…não poderei deixá-los aos escárnios de meus inimigos, eu que os pari, mata-los-ei”. “Eu sei que crime vou cometer, mas a minha cólera é mais poderosa que a minha vontade e é ela a causadora da dor entre os homens”.

Debate-se entre a própria dor e a culpa pelos crimes que acumulará e pelo ódio a quem a ultrajara. É uma criatura trágica que provoca sentimentos de compaixão na platéia. Responde-lhe o Coro das amigas coríntias: “Afirmo que aqueles dentre os homens que não conheceram o casamento e não engendraram filhos são os mais felizes. Com efeito, os que vivem sem filhos, em sua ignorância da dor e da amargura que os filhos trazem, estão livres de muitas angústias. Quanto aos que têm muitos filhos em suas casas vejo-os consumidos por preocupações: primeiro a missão de educá-los honestamente; depois a obrigação de assegurar-lhes a existência, e, para cúmulo, por fim, a dúvida se tais trabalhos se fazem por indivíduos bons ou maus, o que é problemático…E, muitas vezes, na juventude, Tânatos arrebata-os aos pais e os conduz ao Hades”.

Chega à cena um Mensageiro e traz a novidade de que Creonte e Creusa, sua filha, morreram abraçados, vítimas do veneno contido no véu e na coroa. Medéia se delicia ao escutar como, após enfeitar-se com os presentes, a pobre noiva retorceu-se em dores e tinha a pele corroída pelos venenos que a sufocaram. O infeliz pai abraçou-a e ambos contorceram-se e encontraram a pior das mortes, abraçados.

A seguir dirige-se ao coro em paranóia: “Matarei imediatamente meus filhos para que outro não o faça, com mão mais cruel. Matá-los-ei e verdadeiramente os amo, sou uma filha da desdita!” Entra em sua casa e ouvem-se os gritos das crianças que, pelos deuses imploram pela vida, quando o punhal já se abate sobre eles.

O Coro ouve e se indígna: “Miserável! Acaso és de rocha ou de ferro para ceifares a colheita que paristes? Ouvi dizer que só uma mulher, Ino,  ousou matar seus filhos, mas atirou-se ao mar do alto das costas marítimas para morrer com eles. Poderá haver algo de mais horroroso?”

Chega Jasão preocupado em salvar seus filhos da fúria dos parentes de Creonte. Sai Medéia enfeitada e a ele se dirige: “Por que bates e forças estas portas, procurando a mim e aos cadáveres em que tornei teus filhos? Se precisas de mim, digas o que queres, pois Hélios, pai de meu pai, deu-me este carro ( um dragão) que me protegerá de mãos inimigas… Parto para as terras de Egeu e levo comigo os cadáveres de nossos filhos para que tenham um sepultamento dígno”.

Segue-se o diálogo desesperado e final entre um Jasão destruído em sua empáfia, caído pela desmedida em ultrajar quem tudo destruíra em torno de si para amá-lo e agradá-lo e Medéia, enlouquecida, tomada pela Lissa, destestada pelos homens e pelos deuses, a ser perseguida pelas Erínias, se o juízo, um dia, lhe for dado recuperar.

No interpretar de Lesky, “no carro enfeitado a feiticeira goza com selvagem prazer seu triunfo sobre o homem a quem odeia, conferindo com isto um forte acento ao drama. Mas para nosso sentimento, desaparece aqui a mulher que, no decorrer da peça, vimos lutar e sofrer, condenada à culpa e à própria dor”. A vingança perpetrada, em momento algum conduz a uma nova ordem, mas sim, estabelece o caos, representado pelo próprio escárnio de quem, num dragão, força obscura aparentada com o monstro Tifão, partirá para um exílio seguro, obtido às custas de um juramento ingênuo feito por Egeu.

É dado ao Coro encerrar a tragédia: “No Olimpo, Zeus, é o dispensador dos destinos inumeráveis. Os deuses, contra o que esperamos, cumprem muitas coisa, e não deixam acontecer as que esperamos. Ordenam sempre acontecimentos imprevisíveis. Assim foi este.”

Héracles



O teatro de Eurípides, em seu maior momento, reflete a desestruturação social pela qual passa a pólis, assim como os novos questionamentos levantados pelos filósofos, especificamente pelos sofistas e por Sócrates, de quem ele era amigo.

Em seu drama a loucura, que impregnou Medéia, será a companheira do maior dos heróis da mitologia grega, tomando o lugar do comportamento consciente, racional. Héracles simboliza, mais do que nada, um mundo em ruínas, onde os golpes da sorte e o acaso fraturam a ordem estabelecida. Este Hércules, o da tragédia, pouco aporta daquele herói contido na tradição mitológica. Aqui ele é um homem livre, não subjulgado pelos deuses e que após tantos trabalhos, livrando o mundo de tantos monstros, está retornando para uma vida familiar anciosamente esperada, junto ao pai, esposa e filhos. Mas entre ele e a família interpõe-se a tirania de Lico, o tirano (cujo nome nos traz a figura do lobo), que matou Creonte, o rei de Tebas e crendo que Hércules esteja morto, está decidido a eliminar toda a família do herói ausente. No entanto, o herói que descera ao Hades, dele retorna a tempo de salvar sua familía do inimigo “lobo”, para, logo depois ser derrubado pela loucura, e no delírio em que entra, confundir seus filhos com os de Euristeu, seu meio-irmão, às órdens de quem tornara o mundo mais habitável.

Ele os trucida junto com sua mulher. Salva-se do massacre apenas seu infeliz pai. Temos, então, o ser vivente que livrara a terra dos monstros, num surto de loucura, transformar-se no assassino de sua própria família, trasvestindo-se com a loucura, num dos monstros irracionais que combatera. Agora o herói está destruído; nem mesmo o consolo da própria morte, por suas mãos manchadas com o sangue familiar, ele consegue perpetrar.

Eurípides coloca Teseu, a firme amizade, em seu caminho e que lhe acena com a continuidade da vida em Atenas, fazendo com que ele o siga. Hércula já nada possuido herói mitológico, é um simples mortal, triste e moralmente desestruturado. O mundo de euripidiano não comporta grandes reis, tiranos, heróis. O caos, a incerteza, a instabilidade e imprevisibilidade da sorte se instalaram no universo que, outros antes dele, acreditavam unificado e harmonioso.

 Hércules, tomado pela Lissa, a loucura, mata sua mulher e os próprios filhos.

 

 

O Prólogo de Héracles ocorre em frente o altar de Zeus em Tebas, construído por Hércules e onde se refugiam Anfitrião, o pai humano do herói (dado ser Zeus o seu verdadeiro, pois repartira o leito de Alcmena com Anfitrião); Mégara, sua esposa com seus filhos.

Eles estão ameaçados de morte pelo tirano Lico, que, acreditando estar Hércules morto e tendo ele assassinado Creonte, o rei de Tebas e tomado pela força o poder, teme a vingança de Mégara, que é filha de Creonte ou dos seus filhos com Hércules.

Anfitrião relata a história de Tebas, a sua própria e a de Mégara. Que as tarefas de seu filho Hércules constituem uma espécie de pagamento a Euristeu, seu meio irmão e rei de Argos, por dívida de morte contraída pelo pai, o próprio ancião que fala. Uma vez cumprido aquele que seria o seu último trabalho ou seja, trazer à luz do dia Cérbero, o cão de três cabeças e guardião das portas de Hades, toda a família poderia retornar e viver em Argos.

Mas o filho tarda a voltar. Lico, o novo governante de Tebas deseja a morte de todos eles, e proibiu-lhes a entrada na própria casa. Como proteção, sentam-se junto ao altar de Zeus, em frente ao palácio, carentes de tudo o que presta beleza à vida: alimentos, bebidas, vestimentas. “Entre os amigos, poucos vejo como verdadeiros e estes não podem ajudar”. Mégara incita-o a que articule qualquer plano que evite ela e seus filhos, “que preserva como uma galinha aos pintinhos”, morram. Mas Anfitrião somente pode aconselhar que “prolonguem o tempo de vida, já que todos os humanos são frágeis… afinal, a luz me é cara e amo a esperança”. Responde-lhe Mégara: “A mim também, velho, mas como esperar o inesperável?”. Anfitrião: “No adiamento dos males há sempre alívio…Pois aqueles que são prósperos o são até o fim, porque todas as coisas se afastam uma das outras; o melhor homem é aquele que sempre na esperança confia: o desesperar é próprio do imprudente.”

Como veremos no final da tragédia, mesmo a esperança carece de sentido no caos, dado que fatores imprevisíveis e atilados com o acaso comandam o resultado das ações dos homens.

O Coro composto pelos anciãos de Tebas, anuncia a chegada de Lico. Este pergunta diretamente ao pai e à esposa de Hércules por quanto tempo ainda querem prolongar a vida. “Que esperança e socorro contemplais para não morrer? O pai destas crianças jaz no Hades…somente porquê ele matou a hidra do pântano e capturou o leão da Neméia, seus filhos não devem morrer?...Ele teve reputação em luta com feras, mas foi covarde como homem, pois sempre empunhou o arco.”

Os tiranos não conhecem seus limites e possuem a empáfia tradicional dos hoplitas desprezando aqueles que lutam com arco e flexa. Anfitrião defende a "arete", a honra do filho contra as infâmias do tirano. Relata alguma das façanhas do filho e diz que “o hoplita é um homem escravo das armas, somente pode subsistir ao combate em formação unida de companheiros bravios; já o arqueiro, posto à distância, resguarda da morte a si e aos outros”. “Na luta, o mais sábio é fazer mal aos inimigos sem escudar-se na tické, na sorte...Teu desejo de matar-nos é filho de tua covardia e eu entendo, pois os filhos de Hércules possuem os mesmos olhos de górgonas, onde se espelha a tua própria morte no futuro… Mas se desejas merecer o cetro que ora deténs, deixa-nos partir”.

Dirige-se, então, ao Coro em pedido de solidariedade. A soberba e a brutalidade de Lico tenta impedi os velhos anciãos de se manifestarem e ameaça: “Recordeis que sois escravos de minha tirania”. Ordena, então, que tragam madeira e que queimem toda a família no próprio altar de Zeus.

Eurípedes transmite à polis a mensagem de que os tiranos são bárbaros, maus e tratam os homens como escravos. Não constituem solução para a decadência da democracia da pólis. O Coro dos anciãos tebanos responde à altura: “Nunca me dominarás impunemente, nem obterás o que consegui com esforço e fadiga. Volta para o lugar de onde vieste (Lico é estrangeiro em Tebas) e lá pratiques as tuas desmedidas. Enquanto eu viver não matarás os filhos de Hércules…Óh destra mão, como desejaria empunhar a forte lança e não chamarias escravos a homens livres…Não é sensata uma cidade enferma de rebeliões e de más decisões, ou jamais teria te recebido como déspota”.

Mégara apressa-se a agradecer aos amigos, mas pede-lhes que se acalmem e não incitem ainda mais a ira do déspota. Que “já que é necessário morrer, evitemos a morte pelo fogo dilacerador, o que seria motivo de riso para os inimigos, o que é muito pior que a morte em si”. A mulher de um guerreiro expressa o desejo próprio daqueles que possuem aristoi, pois melhor morrer, se tal é inevitável, mas que seja uma kallos thanatoi, uma bela morte, dígna e sem covardia. E para o sogro: “Anfitrião, tens esperanças de que teu filho retorne de dentro da terra? E quem dentre os mortos retornou do Hades?...Ousa a morte, velho, afinal, ela te espera: quem enfrenta a sorte dos deuses é impetuoso, mas insensato. O inevitável jamais ninguém evitará”. Anfitrião: “Por certo nem covardia, nem desejo de vida me impedem de morrer, mas para meu filho desejo salvar estas crianças. Em vão pareço amar o impossível”, e para o déspota: “Uma última graça, Lico, concedei-me: mate-me e a esta mulher, antes das crianças”.

Numa atitude de quem, desde o primeiro momento, teve por objetivo ganhar tempo, começa a entoar um longo hino de louvor aos trabalhos hercúleos, enumerando-os e descrevendo-os um a um. Primeiramente o leão da Neméia, do qual Hércules se apossou da pele e do dorso, incorporando os seus valores de bravura, (como oposição aos subterfúgios típicos dos lobos, ou seja, do próprio Lico); depois traz os centauros abatidos que destruíam as plantações dos homens; a corça de chifres de ouro; as éguas comedoras de carne humana de Diomedes; a luta contra o xenocida Cicno, que matava a todos os hóspedes; a morte dada à serpente de baba de fogo que guarava o jardim das Espérides, com suas maçãs de ouro, trazendo bonança para os humanos; lembra a todos que Hércules sustentou a Terra nos ombros, na casa de Atlas; enfrentou a hoste equestre das Amazonas, que odeiam o sexo masculino e deles só se utilizam para procriar, educando as fêmeas e exterminando os machos; exterminou a hidra de Herna, e com o veneno de seu sangue embebeu as flexas com que abateu o gigante Gerion. Que agora, em seu derradeiro e mais difícil trabalho, descera ao reino dos mortos, do qual ainda não retornara.

O recitar de Anfitrião já deixa clara a hybris em que o filho herói incorrera: seus feitos, de tão maravilhosos que são o aproximam dos feitos dos deuses e descer ao Hades sem estar morto, desejando o retorno, configura a maior das desmedidas.

Enquanto isto, a mãe prepara as crianças com as vestes funerárias. Mégara: “Quem é o sacrífice destes infelizes, ou o assassino de minha desditosa vida?” Agora ela recorda que o pai destinara a cada um dos três filhos conquistas gloriosas. A um, Tebas, a outro, Argos e ao terceiro, Ecália. “E eu escolheria as esposas de Atenas, de Esparta e Tebas para selarmos as grandes alianças”. Novamente, o significado destas “doações” prometidas por Hércules, em sua extensão, ultrapassam o poder do braço humano. Somente o faria quem se acreditasse semelhante aos deuses, em nova perda de suas medidas como mortal.

Neste momento os dois vêm a aproximação de Hércules e sem saberem  tratar-se de uma sombra ou de um ser de carne e osso, exclama Mégara: “Venham crianças, vão ao encontro de seu pai, nada inferior a Zeus salvador”, em linha com a falta de medida de um mortal. Mégara e Anfitrião colocam Hércules a par da morte de Creonte, da expulsão da própria casa e da condenação à morte a todos, imposta por Lico. Que Euristeu enviara arautos a anunciarem a morte do herói, o que estimulara Lico a agir.

Hércules pergunta onde estariam a deusa Decência e seus amigos e como resposta obtém: “Eles (os déspotas) vivem longe desta deusa e a má sorte não tem amigos”. A primeira reação de Hércules é a própria selvageria: quer destruir o palácio dos tiranos, “arrancar a ímpia cabeça e e lançá-la aos cães”; “outros dilacerarei com minhas flechas, e encherei os rios de cadáveres”. Mas o ponderado pai lhe recomenda: “É da natureza, filho, amar os amigos e odiar os inimigos, mas não sejas tão apressado”. E fornece a chave da vitória de Lico contra o rei, Creonte: “Muitos pobres têm o tirano como aliado, pois quando se revoltaram o fizeram para pilhar seus vizinhos mais ricos; mas seus bens foram gastos e evaporaram-se pelo ócio”. Pede que o filho ali permaneça, pois Lico não tardará a vir executar a sentença de morte, que terminará , numa peripécia, sendo a sua própria, “mas não transtornes tua cidade, filho”.

Hércules relata ao pai a vitória na luta para trazer à luz do dia o cão de três cabeças, que colocara no bosque de Ctônia; que fora privilegiado em assistir aos ritos dos iniciados em Eleusis, penetrando nos mistérios da vida e da morte e, finalmente, que se atrasara pois recuperara do reino de Hades o rei de Atenas, Teseu, que aquele fizera prisioneiro. Entram em seguida no palácio e o pai diz aos filhos, premonitoriamente,”a entrada vos será mais bela que a saída”.

Lico chega às portas do palácio e ordena a Anfitrião que traga Mégara e os netos de Acmena, ao que este se nega e o concita a ele próprio executá-los dentro do palácio. Logo que entra é atacado por Hércules e um grito se ouve: “ai de mim, ai de mim”! Lico está morto e o Coro começa sua danças : “Danças, e festas ocupam Tebas, as mudanças de lágrimas são câmbio da tické, da sorte. Foi-se o novo rei, o antigo domina, a esperança voltou”. “Os deuses buscam conhecer os justos e os injustos. O ouro e a prosperidade tiram o juízo dos “mortais e trazem em seu rastro um poder injusto. Ninguém suporta olhar o tempo futuro, pois ao abandonar a lei e favorecer aquilo que é ilegal, rompe-se o obscuro laço da felicidade.”

No momento seguinte, o Coro transtorna-se; evapora-se a alegria, e um pavoroso espectro é visto rondando o palácio. Íris, a mensageira dos deuses apresenta-se e estimula-os a que tenham coragem, pois nada de mal ocorrerá à cidade. Mas ela não está só, acompanha-a Lissa, a loucura, filha da Nix, da noite. Dirigindo-se ao coro, diz ao que veio: “Agora que o filho de Alcmena terminou os trabalhos de Euristeu, Hera quer atá-lo à derrama de sangue familiar através do assassinato dos próprios filhos e o mesmo quero eu.” (como se mensageiro tivesse opinião a dar). Ordena à indecisa Lissa que derrame sobre Hércules a loucura puericida, ou “os deuses de nada valerão e grandes serão os mortais, caso Héracles não seja punido”. Como Lissa vacila, pois não lhe agrada visitar homens amigos, Íris deixa claro que a esposa de Zeus não enviou “a loucura para que ela seja sensata”.

Lissa toma Apolo por testemunha de que fará o que não deseja, mas que assim mesmo: “Romperei o teto e destruirei o palácio, após aniquilar as crianças; ele ao matar os filhos nada saberá, até livrar-se de meu furor”. E passa a descrever a reação de loucura que acomete o herói: “Sacode a cabeça, gira as pupilas onde reflete-se o olhar da morte, não controla a respiração, muge”. Convoca as Erínias a avançarem para dentro do palácio. A tarefa de Íris está cumprida, a ordem dos deuses será seguida. O Coro está fora do palácio onde Hércules caça seus próprios filhos e sua mulher. O prédio parece dasabar e ao final de algum tempo, entra um Mensageiro que contará as desgraças ocorridas no seu interior.

Seu relato: logo após a morte de Lico, quando estava a família em volta do altar de Héstia, o pai foi se transformando, vertendo espuma pela barba e, num falar demente, dirigiu-se a Anfitrião no seu desejo de matar Euristeu, o seu meio-irmão, por ordem de quem tantos gloriosos feitos realizara. Acredita estar em um carro e que viajara até Argos, para “arrancar-lhe a cabeça” e destruir seus palácio. Os servos riam, em seu pavor, pelo inusitado da cena que não sabiam se seria uma diversão ou loucura. Hércules caminhava e acreditava-se em lutas imaginárias das quais se saia vencedor. O velho pai tenta fazê-lo retornar à razão mas é afastado como se fosse o próprio Euristeu. Empunhando arco e flexa ele inicia a perseguição aos próprios filhos como se eles fossem os de seu meio-irmão. Ao primeiro perfura o fígado com certeira flecha; ao segundo, esmaga-lhe o crânio com a poderosa clava. A desgraçada mãe consegue, abraçando o terceiro filho fechar-se numa ala do palácio; mas Hércules derruba os pórticos, portas e muros e com uma única flexa mata Mégara e o terceiro filho. Então "galopa" para matar o pai; mas neste instante, a imagem de Palas Atena surge no palácio destruído e com uma pedra derruba o insano, que batendo a cabeça nas pilastras destruídas, precipita-se a dormir. É, então, amarrado fortemente pelos servos.

Não fora gratuíto o retorno dos reinos que somente aos mortos pertence; à transgressão realizada somara-se o descaminho dado ao cão tricéfalo, guardião da entrada dos Hades. O mesmo mortal, que este nível de ordem pervertera também enviou, na loucura, todos os seus familiares para os cuidados de Hades.

Ao despertar, Hércules de nada se recorda. Questiona por estar atado e rodeado de cadáveres. Anfitrião e o Coro dos velhos anciãos se aproximam. Fita-os e os interroga: “Por que chorais e cobris vossas faces?” Quando vê o banho de sangue em que está imerso, diz: “Sofremos hostilidade dos deuses, pai?”, ao que Anfitrião lhe responde: “Deixa os deuses e atente para os seus males… insólita guerra fizeste em que lutaste contra crianças”. Hércules responde-lhe: “O que chama guerra, a esses quem aniquilou?” Anfitrião: “Enlouqueceste, o responsável pelo massacre és tu e são os deuses”. “Ai de mim, por que poupo então a minha vida?”, responde o herói decaído.

Neste momento entra em cena Teseu, o que contribui ainda mais para o desespero de Hércules pois sente a  “vergonha pelos males praticados”. Teseu, que viera em socorro dos familiares de Hércules e para punir o infausto Lico, depara-se com a matança de crianças e da mulher e com um homem que cobre a própria cabeça com vergonha. Toda a peripécia é contada por Anfitrião a ele, que dá ao mortificado Hércules toda a prova de sua philia, de sua amizade. Teseu odeia aqueles que apenas são amigos na bonança. Estende sua mão fraterna e diz “quem é nobre dentre os mortais suporta o que vem dos deuses e não o rejeita”.

O amigo lhe diz: “Implacáveis são os deuses e para com os deuses, eu! Não existe mais local no mundo onde eu possa estar.” Teseu: “Detém a tua boca, que sofrerás ainda mais”. Hércules: “Minha vida já não é vida e nem antes o era; Zeus, seja ele quem for, gerou-me inimigo de Hera. Pai eu considero a este velho e não a ele”. Depois de todos os seus feitos, ter na loucura realizado a matança dos filhos, não poder habitar Tebas, tão pouco poder ir a Argos ou estar entre amigos… “Para um homem outrora ditoso, são aflitivas mudanças; já para aquele que esteja sempre mal, este nada sofre: é infeliz de berço”. “Por que terei que viver uma vida ímpia e inútil?”

Teseu: “Nenhum dentre os mortais é invulnerável à sorte, nem dentre os deuses. Não partilham sem lei nenhuma o leito uns dos outros, se não mentem os poetas? Pelo poder já não derrubaram e desonraram seus pais? Mas habitam o Olimpo e toleram seus próprios erros”. “Acompanha-me à cidade de Atenas onde te purificarei e compartilharei contigo tudo o que possuo…Quando morrerdes e fores ao Hades, toda Atenas te honrará com sacrifícios e monumentos… Agora precisas de amigos, pois quando se é estimado pelos deuses, os amigos não tão são necessários, pois o deus ajudando já é o bastante”.

Hércules: “Não creio que deuses, por leitos não lícitos anseiem e que grilhões prendam suas mãos, nem que um seja déspota do outro, pois ao deus nada falta, se de fato é um deus. Todo o demais são contos dos poetas. Mas, no meu caso, considero se não seria certa covardia abandonar a luz, pois aquele que não resiste às desgraças não poderia resistir a um dardo. Enfrentarei a vida: irei para tua cidade e gratidão infinita tenho por tuas dádivas… Pois como parece, é necessário submeter-se à sorte. Velho, vês meu desterro e vês que sou assassino dos meus filhos, dê-lhes sepultura e envolve os seus corpos com lágrimas de honra, apoiando-os ao peito materno, infeliz associação que eu aniquilei”.

Por fim pede ao amigo que vá com ele até Argos, pois Cérbero não pode ser abandonado e deverá ser conduzido à sua casa. “Aquele que riqueza ou força mais do que bons amigos deseja possuir, pensa mal”.

Os deuses, em Eurípedes, deixaram de proporcionar harmonia ao mundo dos mortais; existem, mas num mundo que lhes é próprio, em que “nada lhes falta”. Todo o demais “são contos dos poetas”.