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Resenhas e Análises Literárias

Joseph Conrad

"O coração das trevas"



O horror do imperialismo que destrói o mundo, exclusivamente pela ganância imediata, sem nada construir. Os agentes coloniais são todos transformados em robôs que escravizam as povoações nativas pelo medo, pelo terrorismo e pela fome e que, ao final, são pessoas ocas, que um dedo pode penetrar. As trevas são as trevas que não perderam o coração, em seu peito encontram-se somente interesses.

André Gide escreveu sobre a obra: “É um livro magistral! Nele não sabemos o que admirar mais: o tema prodigioso, a construção, a audácia de realizar uma empresa tão árdua ou o sábio argumento.” A arte é a verdade que emociona, comentou o poeta Ferreira Gullar, “O Coração das Trevas” emociona todo espírito que se revolta contra a submissão da humanidade a interesses mercantis e financeiros. O filósofo Bertrand Russell, que conheceu Conrad depois de sua chegada à Inglaterra, tinha verdadeiro fascínio pelo livro e por seu autor (o grau de amizade e admiração foi tal que Russell batizou um de seus filhos com o nome "Conrad").

Joseph Conrad (1857- 1924) foi um escritor britânico de origem polaca. Viveu no mar a juventude e parte da maturidade e, por isso, muitas de suas obras são centradas em marinheiros e aclimatadas no mar ou nos grandes rios. Em 1890, no comando do navio SS Roi de Belges, participou da exploração colonial da bacia do Rio Congo.

Dez anos depois, a experiência pessoal de Conrad serve de base para “O Coração das Trevas”, um berro contra a exploração colonial, o escravagismo, o racismo e o genocídio. E todo o seu empenho literário teve esse direcionamento. Um de seus últimos trabalhos, “Nostromo” retrata um golpe de estado na América Latina, fomentado pelo colonialismo yankee. Em 1924, ano de sua morte, o autor “por coerência”, recusou-se a aceitar o grau de “Cavaleiro do Império Britânico”, uma forma clara de protesto contra as políticas colonialistas.http://proust.net.br/blog/wp-includes/js/tinymce/plugins/wordpress/img/trans.gif

 

“O Coração das Trevas”, publicado em 1902, instiga pelos temas que aborda, pelas circunstâncias históricas e sociais que ilumina e, sobretudo, pelo nível de barbárie que pode ser cometida pelas nações e pelas pessoas ditas “civilizadas”, quando guiadas pelas ambições políticas e comerciais.

O cenário é o estuário do rio Congo, (atual Zaire), país que foi submetido a uma das mais cruentas, sanguinárias e torpes explorações coloniais da História, pela Bélgica de Leopoldo II. Apenas trinta anos dessa exploração (1870 a 1900), fez de Leopoldo II uma das maiores fortunas da Europa. Ao mesmo tempo, a população do Congo que em 1850 era estimada em vinte milhões de seres humanos, reduzira-se a dez milhões, mortos pela fome, doenças, exaustão no trabalho e massacres. O rebanho de elefantes, caçados pelo seu marfim, foi nesse período reduzido a um terço.

O que aconteceu no Congo que, propositadamente, jamais é nominado no livro, espelha a devastação imperial levada a cabo pela Inglaterra, França, Bélgica, Alemanha, Estados Unidos e Itália, nos continentes da África e da Ásia na segunda metade do Século XIX.

No entanto, se observarmos o mundo do século XXI, com as ações de desestabilizações, destruição e assassinatos em massa produzidos por interesses imperialistas nos países do Oriente Médio, da África e da Ásia, encontraremos nas histórias “rememoradas” de Marlow, o narrador de Conrad e de seu misterioso alter ego Kurtz, uma atualidade assombrosa e estarrecedora.

Francis F. Coppola encontrou em “O Coração das Trevas” a possibilidade ímpar de transcrição para as telas dos cinemas. Seu genial filme “Apocalypse Now” é uma aclimatação em tempos de Guerra do Vietnã, com Marlon Brando na inigualável interpretação do “gerente belgo-colonial” Kurtz, agora transformado em agente americano que se oculta na selva asiática.

 

Conrad rompe com o naturalismo e o realismo para atingir o modernismo em sua narrativa que busca envolver o “ouvinte” leitor, numa forma de diluir e universalizar a perplexidade e o horror, buscando construir a solidariedade que “entrelaça a solidão de incontáveis corações, solidariedade nos sonhos, na utopia, na alegoria, no sofrimento”.

O roteiro do livro é a longa viagem realizada pelo narrador, o atormentado Marlow, contratado pelo agente colonial, pois “se você mostra aos chefes que tem em si alguma coisa que seja realmente lucrativa, não haverá limites para o reconhecimento de sua habilidade.” Viagem que visava à substituição do desconhecido Kurtz, a bordo de um barco que navega rio acima, numa complexa teia geográfica, simbólica e psicológica.

O rio com suas curvas misteriosas e imprevisíveis, que enfeitiçaria Marlow na aventura, também é a satisfação do conhecer, o desafio do autoconhecimento. Percorrido na contracorrente, as águas simbolizam um caminhar memória adentro, em busca do inconsciente. “Eu odeio, detesto e não posso suportar uma mentira, não porque seja mais decente que os demais, mas simplesmente que isso me assusta. Tem um laivo de morte em mentir- que é o que acontece nesse mundo- e é o que eu quero esquecer. Mentir me deixa aflito e enojado, como se mordesse algo podre”.

“Nenhum relato de sonho pode produzir a sensação de um sonho, a mistura de absurdo, surpresa e espanto numa excitação de revolta tentando se impor, a noção de ser tomado pelo incompreensível que é da própria essência dos sonhos. Vivemos como sonhamos, sozinhos.”

 

A Europa branca penetra no coração do continente negro, onde a modernidade e o Verbo Divino deveriam ser levados a um povo num estágio primordial de civilização. “Os europeus inventaram a Sociedade Internacional para a Eliminação dos Costumes Selvagens.”

“Eles não eram colonizadores coisa nenhuma; a expansão de suas propriedades era pura extorsão, nada mais. Eram conquistadores e para isso basta a força bruta- bandos armados- nada de que se gabar quando se tem, já que a força é um mero acidente que resulta da fraqueza de outros... Eles agarravam o que podiam. Era apenas um assalto com violência, assassinato em larga escala e homens entrando naquilo às cegas- como convém a quem lida com as trevas”.  “A conquista de terras significa em grande medida tirá-la de quem tem a cor da pele diferente.”

“Lugar onde a dança festiva da morte e do comércio prosseguem numa atmosfera serena e natural, como a de uma catacumba super aquecida.”

Marlow nos conta a história de um sujeito chamado Freslen que se considerou prejudicado por alguma troca, e tendo deixado o rio, desceu em terra e começou a açoitar o chefe da aldeia com uma vara... “mas Freslen já fora uma criatura afável, a mais pacífica que havia sobre duas pernas”. O colonialismo, entretanto, após um par de anos, engajado na “nobre causa”, permitiu-lhe que sentisse a necessidade de afirmar sua autoestima de alguma maneira. “Vergastou o velho negro sem piedade, até que um homem- disseram que era filho do chefe- desesperado de ouvir o velho gritar espetou-o com a lança e ela penetrou com facilidade em suas costelas.” Quando, tempos depois, Marlow chegou para assumir seu lugar no posto, encontra o “povoado deserto, as choupanas apodrecendo... tudo em ruínas. Uma calamidade se abatera sobre a povoação. As pessoas haviam sumido. Um terror louco espalhou-as pela mata e elas jamais voltaram”.

Na construção de uma ferrovia, os belgas utilizavam negros considerados criminosos. “Eram seis negros que avançavam em fila galgando penosamente a trilha. Equilibravam cestos de terra nas cabeças e eram interligados por correntes que ligavam os colares de ferro nos pescoços. Um “renegado negro” conduzia-os segurando um fuzil. Era um demônio forte, vigoroso, de olhos injetados que conduzia homens.”

“Outros homens estavam morrendo aos poucos; não eram inimigos, criminosos, nada além de sombras negras de doença e inanição, jazendo em confusão na penumbra esverdeada, trazidos de todos os recessos da costa, com toda a legalidade de contratos temporários e largados em ambientes insalubres, mal alimentados. Quando ficavam imprestáveis obtinham autorização para se arrastar para longe e morrer”.

Conrad coloca a necessidade de buscarmos entender o próximo, e na aurora do século XX a diversidade do modo de expressão humana dos sentimentos, num leque de culturas diferentes. “Eles uivavam, pulavam e rodopiavam e faziam caretas medonhas; mas o que apavorava era exatamente a consciência da humanidade deles, a ideia de seu parentesco remoto com essa gritaria selvagem e impetuosa. Sim, para nosso padrão estético era feio, mas se você fosse homem o bastante admitiria que existiriam em si mesmo traços tênues de repercussão à terrível franqueza daquele barulho. E por que não? A mente humana é capaz de tudo, porque tudo está nela, todo o passado e todo o futuro. E o que havia em toda a gritaria? Alegria, medo, pena, devoção, coragem, ira? A verdade, quando despida de seu manto de tempo. Para isso o homem “civilizado” precisa ser tão humano quanto o da margem do rio.”

A fome que acomete os povos escravizados pelo colonialismo: “Nenhum medo pode se sobrepor à fome, nenhuma paciência pode saciá-la... Conhecem a perversidade da fome persistente, seu tormento exasperante, seus pensamentos soturnos, sua ferocidade sombria à espreita? Um homem necessita de toda a sua força inata para combater a fome”. “Das profundezas da selva emergiu um gemido de pavor lamurioso e de desespero absoluto como o que acompanharia a perda da derradeira esperança sobre a terra.”

A capacidade do ser humano revoltar-se, quando submetido “a uma tristeza extrema pode se desafogar em violência, mas com frequência, ela toma a forma de apatia”.

Mas vamos ao misterioso agente colonial, pois nas profundezas daquele mundo primitivo estava Kurtz, a “voz”, a esfinge que precisava ser decifrada. “Toda Europa contribuiu para a constituição de Kurtz”, diz Marlow.

“Tudo pertencia a Kurtz, mas isso era um engano. A questão era saber a que ele pertencia, quantos poderes das trevas o reclamavam para si, ele que havia ocupado enquanto vivo, um alto posto dentre os demônios da terra”. “Ele pregava que os brancos deveriam necessariamente parecer para os selvagens com a natureza de seres sobrenaturais, donos de um poder como o de uma divindade. Afinal, que todos os brutos sejam exterminados, o que importa é o marfim.”

Devastava a região e o devastava com a ajuda de tribos: ele explodira sobre eles com raios e trovões e eles o seguiam por pavor, por medo, dedicação ao ser superior, ódio.

Quando Marlow avista o posto interior de Kurtz, ele também divisa nos postes que o rodeavam, em cada um deles uma cabeça de rebelde espetada, “pois não havia nada na terra que impedisse Kurtz de matar quem quisesse”.

“Nenhuma eloquência poderia ser tão destruidora da fé na humanidade que a sua explosão final de sinceridade. Eu vi o mistério de uma alma que não conhecia limites, fé, medo, mas que lutava cegamente contra ela mesma.” “Ele tinha o olhar agudo para penetrar em todos os corações que pulsassem nas trevas.”

“Vi naquele rosto de marfim a expressão do orgulho sombrio, do poder implacável, do terror covarde- de um intenso e inelutável desespero. “O horror” foi o seu grito final.” “No seu íntimo, Kurtz era oco”.

Se fosse possível expressar todo “o Coração das Trevas” em um único parágrafo, poderíamos dizer que: “Destino, coisa engraçada é a vida. Esse misterioso arranjo de lógica para um objetivo fútil. O máximo que se pode esperar dela é algum conhecimento para si próprio e que chega sempre tarde demais, numa cadeia interminável de arrependimentos.”

 

"Vitória"



"Vitória" é, sem dúvida, uma obra-prima do romance psicológico. A história embora contada em tom comedido, sem alarde, requer certa analise literária para que se possa desfrutar de toda a extensão de um trabalho impecável, ao qual Jack London se refere como “um dos porquês de se estar vivo para ler”.

Publicado em 1915, Vitória nada tem a ver com a tragédia da guerra que devastava a Europa. Vitória  é do espírito, de Alma, em sua luta contra a morte.

Axel Heyst é um europeu, irresoluto e sonhador, desiludido com a perspectiva de inserção num mundo ao qual despreza, e despreza por ter adquirido o hábito de pensar. “ O pensamento é o grande inimigo da perfeição. O hábito da profunda reflexão é o mais pernicioso de todos os hábitos contraídos pelo homem civilizado... A utilidade da razão é justificar os desejos obscuros que movem nossas condutas, impulsos, paixões, preconceitos e loucuras, e também nossos temores.”

O personagem central é um sujeito incapaz de uma maldade preconcebida, estando sempre pronto a gestos de autêntica solidariedade, na medida em que estes não acarretem envolvimento e muito menos recompensas materiais. Conrad coloca o sueco Heyst como uma figura que nos sugere francamente o Príncipe Michkin de “O Idiota” de Dostoievski, mas já dentro da perspectiva da complexidade do homem moderno.

Após o falecimento de seu pai, um filósofo shoppenauriano, Hyest deixa a Europa e se transforma num pária sem rumo e sem lar fixo, vagando pelos mares do sul da Ásia. Escrevera o pai de Hyest: “Clarividência ou não, os homens amam seu cativeiro. À conhecida força da negação eles preferem o leito miseravelmente desfeito de sua servidão”.

Heyst, primeiramente conhecido como “O encantado”, é um sujeito para quem nada mais havia a conhecer além de “fatos”. O andarilho somente buscará uma fixação após uma primeira inserção pouco voluntária no mundo. E o faz exclusivamente por insistência do amigo Morrison, para “não desgostá-lo”, quando assume responsabilidade pela exploração de carvão mineral para uma insignificante empresa de Londres. No dizer de seu patrão de tão curta permanência, ele era um “cavalheiro perfeito, mas um tanto utópico”.

Será, após o previsível fracasso do empreendimento comercial, que Heyst se voltará para os livros e mobiliários que herdara do pai, excluindo-se do mundo dos homens na ilha-vulcão no mar de Java, Surubaia.

Dizia para Davidson, um navegante que raramente o visitava:“A natureza humana é como é, com seu lado tolo e mesquinho”. “ Creio que causei certo dano quando me deixei ser tentado a agir. Parecia bastante inocente, mas toda a ação tende a ser danosa. É diabólico. É por isso que o mundo, no todo, é ruim. Mas eu não quero mais nada com ele! Jamais moverei um dedo de novo. Houve uma época em que pensava que a observação inteligente dos fatos era o meio de iludir o tempo que nos é concedido, mas agora, acabei com a observação também.”

Dizia ainda: “O mundo é um cão azedo. Ele lhe morderá se o senhor lhe der uma chance; mas creio que aqui (na ilha),poderemos desafiar os fados com segurança.” Não era um ermitão, mas tentara exilar de si, o mundo. A vida, entretanto, prepararia uma nova cilada para tornar a enreda-lo.

Certa vez, em uma de suas poucas escapadas, na hospedaria de um “teuto”, Schomberg, ele conhece Alma, o nome pelo qual era tratada Magdalena, uma pobre e explorada violinista inglesa, acorrentada a um grupo mambembe de músicos viajantes. Alma vive o desespero de um mundo que a violenta e a oprime. Ela precisa socorrer-se dos desejos lascivos de um Schomberg assim como do organizador do grupo musical, outro teuto travestido de italiano.

Tal qual fizera antes com Morrison, Hyest se deixa atrair por Alma e a ampara, raptando-a e dando-lhe refugio na distante Surabaia. “Havia naquele rosto algo indefinivelmente audacioso e infinitamente infeliz”. O espírito de Heyst é atraído pelo desespero da jovem e impelido a protegê-la por compaixão, embora a beleza jovem e espontânea também cumpra seu papel de atração. Retornando ao “O Idiota”, temos a figura de Nastasia Filipovna a se delinear até o sacrifício.

“O encantado” mantinha pelo mundo um total desencanto. Recentemente ele concluíra que só o fracasso faz o homem entrar dentro de si mesmo e avaliar seus recursos. Antes, na solidão e no silêncio, costumava pensar claramente, vendo a vida além da lisonjeira ótica da esperança, das convencionais auto ilusões, da sempre esperada felicidade. Mas, agora, perturbava-se pois Magdalena, Lena, despertava nele uma ternura, ainda indistinta e confusa, mas prazerosa, complementar.

Lena, por seu lado, se entrega na esperança de esquecer tudo o que ficara para trás, todo o terror, todo o desespero. “Sem sentimento de culpa, por um desejo de segurança e por uma profunda necessidade de depositar sua confiança onde seu instinto de mulher orientava-a”. Hyest dera à sua vida um sabor, um movimento, uma promessa mesclada de ameaças que ela não desconfiava que se pudesse encontrar, não uma moça casada com a miséria como ela. Sua alma naufragada tinha que agarra-se a ele.

Shomberg, o teuto enciumado, espalha rumores sobre Heyst, sobre as relações deste com o finado Morrison, a respeito de possível dinheiro escondido na ilha, o que, afinal, guiará até ela três ladroes e facínoras.

“O poder da calunia aumenta com o tempo. É insidioso e penetrante. Pode mesmo destruir a fé de uma pessoa em si mesma... apodrecer a alma”.

Os três são desesperados errantes em busca de dinheiro fácil. Parece que, em algum momento, todos esses tipos extravagantes haviam tido  que optar por alguma maneira de afastamento social, e uma comunhão de renegados se fez, dividida em compaixão e esperança de uns, e astúcia e malícia de outros, violência de todos.

Jonesé um pseudo cavalheiro inglês de estranha espécie, que devotava supremo ódio e desprezo a todas as mulheres.

Martim Ricardo tinha a agressividade de uma fera, que olhava todas "as criaturas domesticadas da Terra" como suas potenciais vitimas naturais. Violentar ou matar era tudo a mesma coisa para ele, contanto que o ato liberasse a alma sofredora daquela selvageria por tanto tempo reprimida. Era o único do trio que conhecia a existência de uma mulher na ilha.

Po terceiro do trio era um bruto, simplesmente.

O mundo do qual Hyest e Lena julgavam desconectar-se voltara até eles, numa forma de absoluta violência. Os bandidos surgem como uma espécie de enviados do mundo, com o qual Hyest havia rompido há anos.

Martim Ricardo tenta submeter fisicamente Lena que lhe resiste com uma impossível força , num momento em que não era mais apenas o ser humano que contava. Ela não se defendia por si mesma apenas, mas pela fé que nascera nela, a fé no homem de seu destino e talvez nos céus que o haviam feito cruzar seu caminho. Além da força ela usara a duplicidade. “Duplicidade- refugio dos fracos e dos covardes, mas dos desarmados também! So a duplicidade separava o encantado sonho de sua existência de uma cruel catástrofe. Parecia-lhe que o homem sentado a sua frente era uma presença inevitável, que acompanhara toda a sua vida. Era o mal do mundo corporificado e por isso não se envergonhava de sua duplicidade”.

O Sr. Jones dirá a Hyest: “Sou uma espécie de destino, o castigo que espera a oportunidade...” O sueco desarmado sabia que um bandido insano é uma combinação mortal!

Ao saber que havia uma mulher na ilha, Jones advinha que Martim deveria querer mancomunar -se com ela e destrui-lo, além do sueco. Ao tentar baleá-lo, acerta um tiro em Lena.

Mas vitória sera de Lena, que consegue capturar a morte- a morte súbita, irresponsável, selvagem, que rondava o homem que a possuía. Ela termina por salvar a vida de Hyest.

Ferida, nos braços de Hyest, enquanto os bandidos se auto aniquilam, o espirito da moça apegava-se ao seu triunfo, convencida da realidade de sua vitória sobre a morte. “Eu salvei você, porque não me tira desse lugar solitário?” murmura em seu estertor.

Hyest mesmo nesse momento mantinha seu verdadeiro grito de amor longe dos lábios, em sua infernal desconfiança sobre a vida. Confessa ao amigo Davidson, que chega em socorro- “Infeliz do homem cujo coração não aprendeu quando jovem a ter esperanças, a amar, e a confiar na vida!”

Ao final, a vida nada tinha mais a oferecer-lhe. Com sua Lena nos braços, suicida-se.

As primeiras analises realizadas sobre “Vitória”, apontaram um tom melodramático na história, mas, na realidade, o melodrama em Conrad é consequência da descida ao abandono de cada um.

Os locais exóticos são típicos dos romances de Conrad, onde a natureza de alguma forma determina a personalidade do personagem. A ilha é, obviamente, sinônimo de solidão, mistério, de afastamento. Reflete muito bem a solidão de almas que Conrad procura retratar, perfilando-as ao meio ambiente onde habitam.

O mar permanece como um obstáculo, uma barreira quase que impenetrável, embora único caminho para o relacionamento com outros seres. Como na própria vida, as relações entre os homens são sempre perigosas na ausência de amizade, de amor ... Ou seja, para estabelecer esses laços, é necessário atravessar o mar que separa um dos outros, enfrentando os perigos que a viagem implica.

Morrison e Hyest simbolizam claramente a possível ponte entre ilhas com suas viagens. Eles são os amigos por excelência, dispostos a ajudar outros que operam em mares perigosos, sem esperar recompensas e sem questionar a vida de outro homem, permanecendo como um observador à distância, sem julgar nem a realidade e muito menos seus semelhantes. Há nessas personagens, e no gesto final de Lena manifestos claros da moralidade que Conrad quer observar, sem os preconceitos e premissas tão característicos do homem vulgar.

“Vitória”, verdadeira obra de arte, não é uma espécie de combinação de temas de ressonância que sensibilize o leitor. E a marca do amor como pano de fundo, um paraíso perdido por causa do mal, do mal que surge a partir da inveja e se introjecta em outras vidas, negligenciando sua própria, como no caso de Shoemberg. Algo que acontece todos os dias em nossa sociedade.

Conrad recria a realidade da maneira mais sutil, através da projeção de uma vida, Hyest, seus pensamentos, sua figura. Um personagem que será gravado na consciência do leitor em toda a sua magnitude e importância, porque mais do que um episódio, ele termina identificado em muitos de seus sentires, laços e decepções.

Vitória é a vitória da Alma, de Magdalena, da vida que se entrega à morte pela Vida.

O romance foi adaptado para o cinema por diversas vezes. Um primeira versão foi no cinema mudo, em 1919 dirigida por Maurice Tourneur; uma segunda, em 1930 quando William Wellman dirigiu “O Paraíso Perigoso”; em 1940, terceira versão dirigida por John Cromwell; e, finalmente, a última, de 1995 por Mark Peploe , com Willem Dafoe , Sam Neill , Irene Jacob e Rufus Sewell .