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Resenhas e Análises Literárias

Mia Couto

O Último Voo do Flamingo



A leitura de Mia Couto caminha numa variante do realismo fantástico; melhor seria dizer que, como um mago, ele trabalha uma espécie de animismo fantástico, em que as almas encarnam em gentes com as tradições e as magias do seu pedaço de mundo, que não é somente Moçambique, mas todo o continente africano.

Adota, num tempero que é seu, os nomes que por si só explicitam características psíquicas e comportamentais de seus personagens. Se ele transita pelo trágico, é certo que nele também encontramos um profundo e delicioso lirismo que ao poeta nos ata, prendendo-nos até o final em uma leitura que é feita sofregamente, mas à qual retornaremos muitas vezes para, somente então, degluti-la em seu âmago.

Como Guimarães Rosa, Mia Couto enriquece o linguajar com neologismos extremamente adequados a cada circunstância, num poetar que flui autêntico e doce, unificando a estética aos pensamentos, tradições e expressões de sua gente.

O autor, ao receber o Prêmio Mário Antônio em 2001, declarou que O último voo do flamingo “fala sobre a perversa fabricação de ausência - a falta de uma terra toda inteira, um imenso rapto de esperança praticado pela ganância dos poderosos”. Uma nação profundamente agredida pelos anos de ocupação, pelas guerras e pela ganância daqueles que usurparam o Poder deixado pelo colonizador. Um domínio totalitário que deixou as mãos dos portugueses para ser exercido pelos africanos, os “Administradores” do hoje que, no passado, se juntaram à luta revolucionária por oportunismo, ou que, uma vez no poder, esqueceram seus ideais socialistas, agindo em função da própria ganância.

Mia Couto disse mais: “ O avanço desses comedores de nação obriga-nos aos escritores, a um crescente empenho moral. Contra a indecência dos que enriquecem a custa de tudo e de todos, contra os que têm as mãos manchadas de sangue, contra a mentira, o crime, o medo, contra tudo isso se deve erguer a palavra dos escritores.”{C}{C}{C}{C}{C}{C}http://proust.net.br/blog/wp-includes/js/tinymce/plugins/wordpress/img/trans.gif

O roteiro de O último voo do flamingo desenvolve-se nos anos noventa, os primeiros após a guerra de Independência e dos anos de guerra civil. Moçambique emergira arrasado por problemas sociais e políticos; é um país cindido na própria identidade. Tropas da ONU desembarcam em terras africanas para imporem sua “ordem”, a “paz”.

Tizangara é a terra fictícia em que transcorre a narrativa. E será essa terra que implodirá na escuridão, pendurada no tempo, logo depois que o flamingo, símbolo da felicidade e da prosperidade, decidir abandoná-la em seu último voo. Permanecerá um fio de esperança: um voo de outro flamingo, que talvez um dia, ainda faça o sol voltar a brilhar, afastando a escuridão que a tudo recobre .

O romance principia com pessoas que explodem. Primeiro os estrangeiros, os soldados Boinas Azuis; depois deles, os próprios moçambicanos. Os primeiros “explodem” quando fazem sexo com as moças locais; uma explosão limpa que somente deixa rastros nos genitais e boinas pendurados em árvores. Afinal o que eles entendem sobre o conflito daquela gente para transar com os negros? São corpos estranhos que devem ser expulsos.

Quando os negros explodem, eles o fazem de verdade, com sangue e vísceras por toda parte; pisaram  minas terrestres plantadas e replantadas pelos homens de negócio e de governo, sedentos por dinheiro.

O narrador da história deverá servir de tradutor que, por ordens do Administrador Jonas , dará apoio a um italiano a serviço da ONU, Massimo Risi, que vem investigar o porquê das explosões exterminadoras. Ora, Massimo compreende muito bem o português e, ao final, compreenderá a emblemática Tizangara. O tradutor deveria transmitir ao estrangeiro uma “ilusão” sobre a realidade, comportando-se “tão bem” quanto Chibango, o assistente do Administrador, o típico “lambe-botas”, que é um funcionário “como todo agradista: submisso com os grandes, arrogante com os pequenos”. “O burro na companhia do leão não cumprimenta o cavalo”.

O italiano é levado a hospedar-se na única pensão da cidadezinha, que “nos tempos da revolução chamava-se Martelo Proletário; mudaram-se os tempos, desmudaram-se as vontades. Agora se denominava Martelo Jonas.” Difícil explicar que “a pensão é privada, mas que também é do Partido. Isto é, do Estado”. Ironicamente, o narrador nos diz que “o camarada Administrador Jonas não abusava, os outros é que não tinham poder algum.”

O narrador-tradutor comunica-nos um pouco de si e sobre seus pais. “Eu lhe pedia (à mãe), explicação do nosso destino, ancorado na pobreza. Ela dizia: Já pegou mania dos brancos; quer entender o mundo que é coisa que nunca se entende. A vida, meu filho, é uma desilusionista.” Mas o narrador já provara da “árvore do saber”, “a escola foi para mim como um barco que me deu acesso a outros mundos”.

Falando do pai, Sulpício, “meu velho não guardava boa ideia do trabalho. Perdera crença de o trabalho criar o futuro.” Nos tempos de colônia servira no Exército Colonial, como guarda florestal: “sofri racismos, engoli saliva de sapo”. “Aprendera na tropa que só se dispara sobre o inimigo quando ele estiver perto”. No caso dele, estava tão próximo que se arriscava a disparar sobre si mesmo. O inimigo lhe estava dentro. O que ele atacava não era um país de fora, mas uma província de si...

Ainda Sulpício: “ Quando os revolucionários chegaram eles disseram que o povo seria dono e mandante. Ele se encheu de medo. Matar o patrão?” Muito mais difícil é matar o escravo que está dentro de nós. Mas só mudamos de patrão, conclui Mia Couto. Esses chefes políticos deviam ser grandes como árvores que dão sombra. Mas têm mais raiz que folha. Tiram muito e dão pouco. “Os brancos ocuparam-nos. Não foi só a terra: ocuparam-nos a nós, acamparam no meio de nossas cabeças. Somos madeira que apanhou chuva. Agora nem acendemos e nem damos sombra. Temos que secar à luz de um sol que ainda não há. Esse sol só pode nascer dentro de nós”. “ A guerra nunca partiu, filho. As guerras são como estações do ano: ficam a amadurecer no ódio da gente miúda.”

A respeito dos Boinas Azuis, quando o filho “tradutor” diz que eles “ajudam a construir a paz”, o pai contesta: “ Nisso você se engana. Não é a paz que lhes interessa. Eles se preocupam com a ordem, o regime desse mundo. A ordem que lhes faz serem patrões. Essa ordem é uma doença em nossa história... a aposta dos poderosos, tanto os de fora quanto os de dentro: provar que só colonizados poderíamos ser governados. Antigamente queríamos ser civilizados. Agora queremos ser modernos.”

 

O sexo, é sempre presente em Mia Couto, forte elemento destinado a ligar ou a ser usado; quando simplesmente “bem de consumo” ele conduz à aporia das explosões dos soldados. Quando conexão entre seres humanos, produz vínculos de amor que abrem caminhos do compreender, do compartir. Na pensão, o italiano conhecerá uma figura triste, Temporina, a jovem com a cara de velha, “pois o tempo passara e ninguém a amara”, apesar de seu corpo escultural prenunciar delícias ainda não provadas. Massimo verá outra Temporina em suas formas, requebros, encantos e encontrará a excitação da paixão; o único estrangeiro a amar cujo corpo não explodirá, no amor compartido.

Massimo deverá investigar as explosões dos Boinas Azuis começando pelo último “explodido”. Aquele que morrera ao penetrar a prostituta Ana Deusqueira. Sem que ele saiba, ela o protegerá através do feiticeiro Andorinho.  Relata-lhe sua história de vida. Desde cedo puta, fora, no início da Revolução, enviada para Campos de Reeducação. “ Atafulharam caminhões com putas, ladrões, gente honesta e mandaram para o mais longe possível. Tudo de uma noite para o dia, sem aviso. Quando se quer limpar uma nação só se comentem sujidades”. “E pergunto, por que nos ensinaram essa merda de sermos humanos? Seria melhor sermos bichos, tudo instinto, podermos violar, morder e matar. Sem culpa, sem juízo, sem perdão. A desgraça é essa: só uns poucos apreenderam a lição da humanidade.” E o aconselha: “ Massimo, nunca aspire a ser centro de nada. A importância aqui é mortal”. Massimo seguirá seu conselho, ele também filho de gente do povo, de uma prostituta com seu avô-pai.

 

Chegamos a Jonas, O Administrador: “ Quando o Administrador chegou a Tizingara, trazia uma farda da guerrilha e as pessoas o olhavam como um pequeno deus. Nessa altura, dizem, ele não era como hoje; ele entregava-se aos outros. Trouxera um sonho de embelezar futuros, nenhuma pobreza teria mais esteira. “Esse país vai ser grande”, dizia. Com o tempo, a vida esqueceu-se de sua palavra, o hoje comeu o ontem”. “Ninguém é prisioneiro senão de seu próprio destino”.

Confissões do Administrador Jonas ao Camarada superior, seu “sócio” em empreendimentos:

“ Eu, de acordo com sua recomendação, sempre me faço maior que meu tamanho. Sempre faço lembrar meu heroísmo na luta armada; em pleno mato, sem nada para comer, tudo em sacrifício pela libertação do povo”... “ Trata-se de meu enteado que anda metido com maltas duvidosas que roubam e traficam drogas. Estou preocupado e, inclusive, já lhe entreguei a ambulância que um projeto enviou para tratar a saúde. Eu desviei a viatura para o moço fazer uns negócios; entretinha-se e sempre rende. Depois vieram essas manias de corrupção e eu acabei devolvendo a viatura. Agora estou a pedir outra para os sul-africanos que querem se estabelecer aqui. Eles entregam e eu, facilito... São pretos como eu, mas não sou da mesma raça. Pode ser que eu seja um racista étnico. Tenho até vergonha deles. Trabalhar com as massas populares é difícil, já nem sei como intitulá-las, massas, povo, comunidades, sei lá. Se não fossem essas maltas pobres nosso trabalho seria facilitado... O padre disse que o inferno não aguenta mais de tantos demônios. Estamos a receber excedentes aqui na terra, um gênero de deslocados do inferno e que nós, os antigos revolucionários, fazemos parte desse excedente. Fomos socialistas aldrabões; viramos capitalistas aldrabões... O povo é a concha que nos abriga, mas pode, de repente, tornar-se a chama que nos irá queimar... Despeço-me enviando-lhe sinceras saudações revolucionárias, ou melhor, excelentes cumprimentos”.

Em outra carta, o Administrador relata um sonho para seu superior: “Nós fazíamos as cerimônias chamando nossos heróis do passado. Vieram o Tzunguine, o Madiduane e os outros que combateram os coloniais. Sentamos e pedimos que nos ajudassem a colocar ordem no mundo de hoje, que expulsassem os novos colonizadores. Fui sacudido pelos mortos que ordenavam que eu me levantasse: “Tu não pediste que expulsássemos os opressores”? “ Pois te estamos a expulsar, a ti e aos outros que abusam do Poder.” “Os Resistentes de nossa História chutando-nos para fora da história”. E termina saudando a firme liderança nos assuntos do Estado e as transformações capitalistas operadas em favor das massas populares.

 

Passemos a algumas considerações do próprio narrador: “Não havíamos entendido a guerra e, agora, não entendíamos a paz.... Se os chefes nesse novo  tempo respeitassem a harmonia entre a terra e os espíritos, então cairiam boas chuvas e os homens colheriam felicidades. Mas os novos chefes pareciam pouco importados com a sorte dos outros. Na minha vila( porque outros lugares eu não conheço) havia tanta injustiça quanto no tempo colonial. Parecia que esse tempo não terminara, apenas era gerido por outra raça... Secretamente eu deixara de amar aquela vila, ou se calhar, a vida que nela se vivia. Aqueles que nos comandavam engordavam a olhos vistos, roubavam terras aos camponeses, se embebedavam sem respeito. A inveja era seu maior mandamento. Os novos ricos se passeavam em terreno de rapina, não tinham Pátria. Sem amor pelos vivos, sem respeito pelos mortos. Eu sentia saudades dos outros que eles haviam sido, porque afinal eram ricos sem riqueza nenhuma. Se iludiam tendo uns carros, uns brilhos de gasto falso. Falavam mal dos estrangeiros à noite e durante o dia se ajoelhavam a seus pés por migalhas. Queriam mandar sem governar, enriquecer sem trabalhar”.

As hienas inautênticas, bichos mulatos de gente. E mais, suas cabeças eram as dos chefes da vila. Os políticos dirigentes desfilavam em corpo de besta. Um das hienas disse: “Nós roubamos e re-roubamos. Roubamos o Estado, roubamos o país até só sobrarem os ossos. Depois de roermos tudo, regurgitamos e voltamos a comer.” “As ruínas de uma nação começam no lar do pequeno cidadão”.

 

Caminhamos para o epílogo. Massimo prepara um relatório sobre o que vira e vivenciara. Por ser honesto, sabia que significaria o fim de seu emprego, e que, além disso, ninguém na ONU estaria interessado na tragédia de um povo, tão somente na Ordem. Senta-se com o narrador à beira de um rio.

“Próximo do rio, a nação parecia haver sido toda engolida num vácuo. Já acontecera com outras nações da África. Entregara-se o destino destas nações a ambiciosos que governaram como hienas, pensando apenas em engordar rápido. Tentara-se de tudo, de todas as magias, em vão, pois não havia gente que amasse a terra. Faltavam homens que pusessem respeito a outros homens. Os deuses decidiram transportar aqueles países para esses céus que ficam no fundo da terra. Lugares onde nunca se fizera sombras, cada país ficaria em suspenso à espera de um tempo favorável para regressar a seu próprio chão. Aí se poderia implantar uma bandeira, a tão sonhada. Até lá era o vazio, o nada... Transmutaram-se em não seres, sombras à espera das respectivas pessoas. Podia ser também que aquele buraco tivesse sido onde os deuses quisessem enterrar os demônios que engordavam em nossa terra. A fábula do flamingo que desistira de voar e que agora só queria repousar. O flamingo, salvador de tantos navegantes quando já perderam as direções da vida”.

Mássimo transforma seu relatório em um pássaro, num flamingo de papel e diz: “há de vir um outro”. Na tradição daqueles lugares, os Flamingos, eternos anunciadores da esperança.

Um Rio chamado Tempo, uma Casa chamada Terra



O segundo livro que resenharemos de Mia Couto nos extasia da primeira à última linha; seu animismo fantástico é executado ainda com maior maestria. Encontrando lado a lado o inusitado e o real, adentramos numa viagem que é pura poesia. Um tipo de poesia feita para matutar, poesia reflexiva, pois Mia nada tem de ingênuo e, provavelmente, ele visa tocar determinado tipo de leitor, aquele que compartiu com o mesmo, numa terra chamada Terra, alguma experiência no reino da utopia, ou que seja um candidato a tal.

Sentimos o intenso pulsar da África: o autor trabalha as tradições moçambicanas, utilizando-se de uma linguagem lúdica, criativa, que não se envergonha nem mesmo de trocadilhos, no melhor caminho para Guimarães Rosa.

Lírico e belo, tão trágico quanto O ultimo voo do flamingo, Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra fala da terra num tempo histórico que agora é de paz, após dezesseis anos de guerra. Depois da independência conquistada pela Frelimo, de inspiração marxista, sobreveio a guerra com a Rodésia, ponta-de-lança do imperialismo e do “apartheid” sul-africano.  Em seguida, a guerra civil destruiu o sonho de uma geração que pensava ser possível criar uma nação próspera, um futuro digno para os africanos. O sonho de Samora Machel e de seus heroicos seguidores ficou longe de se concretizar. “ A realidade pós-colonial demonstra ser ainda pior”, nos confessa Mia pela boca do narrador.{C}{C}{C}{C}http://proust.net.br/blog/wp-includes/js/tinymce/plugins/wordpress/img/trans.gif

Luar-do-Chão é a Ilha, separada da Cidade por apenas um rio. A ilha, o pedaço de mundo ficcional de Mia Couto que se encontra num estado de abandono, miséria e decadência, mas que, centrado na família dos Marianos, mantém um conjunto de tradições populares, que também correm o risco de serem destruídas. A Cidade é o local dos desgovernos, das grandes transações, dos negócios.

Iniciemos pelo personagem- narrador, Marianito, um universitário que retorna à Ilha Luar-do-Chão pelas mãos de seu tio mais velho, Abstinêncio, após anos de ausência. Volta para a realização dos funerais de seu avô Dito Mariano, que ele iria comandar, segundo a tradição africana, por vontade do patriarca, um “morto- não morto” ou um vivo à espera que a morte e a terra decidam-se por recebê-lo em seu seio.

Tio Abstinêncio tinha tido um caso com o mundo. E agora lhe doía a decadência desse rosto a quem amara e por isso  tornara-se melancólico, de tudo se abstendo.“ O mundo não tem mais beleza.” Ele que por haver despendido a vida à sombra de uma repartição pública, acabou ficando saudoso de um tempo nunca havido. Fora demitido do serviço público quando começara a falar da necessidade de que se deveria separar o dinheiro público do privado. Ele via lixos, gente vivendo de lixos, gente valendo menos que esterco, aquilo lhe doera o coração, e o mais grave era a riqueza germinada em obscuros ninhos, a indiferença dos poderosos para com a miséria de seus irmãos.

Marianito atravessa de barco o rio para chegar à Ilha. Na travessia ele conhece Miserinha, uma mulher gorda e baixinha, ficara semicega ( por não ver cores, ela não distinguia preto de branco, tudo para era mulato), devido a uma paulada na cabeça recebida por Dito Mariano, de quem era amante. Ela que fazia magias de proteger e desproteger pessoas, nunca conseguira proteção para si mesma. Quando de sua viuvez, seus parentes lhe haviam roubado tudo, e ela ganhara o nome. “ Só existem dois tipos de pessoas que se aproximam da gente: uns para pedirem, outros para roubarem.”

O sexismo do africano explode pelos atos e pela boca dos personagens. Sexo africano, liberto e poligâmico para a maioria dos homens; restritivo, punitivo, serviçal e monogâmico para as mulheres. Dito Mariano, o patriarca, era casado com Dulcineusa, de quem Miserinha, a quem ele transformara em amante, era cunhada.  Dulcineusa  tinha também uma a meio- irmã, muito mais nova que ela, também amante de Dito Mariano. Chamava-se Admirança, a de lindas formas.

Quando chega à vila, Marianito encontra as casas em ruínas, exaustas de tanto abandono. “Não são apenas casas destroçadas, mas o próprio tempo desmoronado, com a miséria se espalhando pelas ruas”. Ainda pode-se ler um letreiro sujo pelo tempo: ”A nossa terra será o túmulo do capitalismo”. A única propriedade preservada em toda a vila é a casa do clã dos Marianos.

Marianito tinha mais um tio, Ultímio, um político oportunista, sem caráter e sem respeito pelas tradições do povo, que vivia na Cidade, mas que imediatamente apressara-se em comparecer ao funeral, interessado em negociar toda a Ilha, começando por desmatá-la e vender a propriedade familiar para estrangeiros interessados em terras raras. Chegara à Ilha num carro último tipo, mas que atolara no lamaçal das ruas de terra da ilha. “A política é a arte de mentir tão mal que pode ser desmentida por outros políticos”.

O único amigo de tio Abstinêncio era Amílcar Mascarenhas, um médico goês. Ele segreda a Marianito a respeito de Ultímio: “ele  é um desses que pensam que são senhores só porque são mandados por novos patrões. A maior parte dos pobres lhe  inveja os brilhos, mas para mim ele não passa de uma minhoca. No charco onde a noite se espelha, o sapo acredita voar entre estrelas.” “Nunca estivemos tão próximos do bicho”.

Mascarenhas vivia próximo a um edifício em ruínas, onde ainda se podia ler uma frase já muito apagada, que ele mesmo havia pichado um dia: “Abaixo a exploração do homem pelo homem”. Fora militante revolucionário, lutara contra o colonialismo e fora preso político por anos. Após a independência deram-lhe cargos de importância na Capital. Quando a revolução terminou, ele foi removido de todos. Assistiu à morte dos ideais que lhe davam brilho ao viver. Buscou refúgio na bebida e na Ilha.

Chegando à casa, Marianito descobre, na sala sem teto, em cima da mesa, seu avô nem morto, nem vivo. Ele que enquanto vivo se dizia morto, e que agora, morto, teima em não morrer totalmente. O cadáver repousava sobre o lençol no qual Dito Mariano amara  todas as mulheres de sua vida. O “falecido”, que  estava em dificuldade de transição, encravado entre as fronteiras dos dois mundos, ainda pediria ao neto que lhe trouxesse uma moça rija para sua despedida sexual.

Ah, Mia Couto, o sexo o tem acorrentado! Admirança, a tia, é um símbolo do sexo que busca. Ela é a primeira que atiça, no roçar, os instintos sexuais de Marianito, esse jovem candidato a Édipo, na sua ignorância do passado. Em sonho ou em realidade ele seria por ela possuído, ou melhor seria dizer, estuprado?

Dulcineusa é avó, mãe, deusa, escrava. Seus dedos sem unhas são deformados pelos anos sem fim a trabalhar na fábrica de castanhas de caju. A submissão ao homem da mulher africana é simbolizada por uma frase de Dulcineusa: “Nunca na minha vida tive que concordar ou discordar, não vou agora aprender”. Ela sempre soubera de todas as traições de seu marido e as tolerava como “naturais”. Somente uma pergunta a atormentava após a morte do marido: “ele, afinal, a amara?"

Cabe a ela a entrega de velhas chaves, simbolizando o desejo do patriarca: que o neto assumisse a casa, as tradições familiares, evitando a degeneração que por todos os lados grassava; que espantasse aos abutres que aparecem apenas para reclamar heranças.

Marianito reencontra seu pai, Fulano Malta, “aquele que nunca pecou por estar desprevenido”. Fulano somete uma vez estivera na Cidade, em visita ao filho. Voltou com o sexo cansado da prostituição barata e sem um tostão de seu, voltando a residir em sua pequena tapera, distante do lar familiar. O pai dirá ao filho que, não bastassem todos os desarranjos que acometeram a terra, um novo surgira: o narcotráfico e a cocaína. Sempre armado, ele teme o retorno daqueles que um dia mataram seu grande amigo, Juca Sabão.

Juca Sabão tentara lavar a terra desse novo pesadelo e “semeara na terra” os sacos de cocaína que a nova geração deixara na Ilha. Ele fora assassinado pelos traficantes que não lhe perdoaram a perda da mercadoria. Até mesmo a  arma do crime desaparecera, “para encobrir os verdadeiros mandantes, gente graúda”. “ Luar-de-Chão começou a morrer quando mataram o Juca Sabão”, confidencia ao filho. Por muitas razões ele despreza seu irmão Ultímio, dentre elas, a cobertura que dá aos filhos, os traficantes de cocaína que mataram Sabão.

 

Todos os mistérios daquela terra, a história de suas gentes, serão transmitidos a Marianito através de estranhas cartas, cartas de navegação e entendimento, escritas por sua própria mão, mas inspiradas por seu avô. Na primeira delas, Dito lhe diz que ele enfrentará desafios maiores que suas forças, que “aprenderá que cada homem é todos os outros”. “Os viventes são vozes, os transferidos (mortos), são ecos.” E como eco o avô lhe dirá mais: “Todos aqui estão morrendo, não por doença, mas por desmérito de viver”.

Fulano Malta casara-se com Mariavilhosa, linda negra que havia sido estuprada e engravidara do administrador português. Mariavilhosa, que  provocara o aborto que quase a matara, perdera a capacidade de ter filhos. Fulano foi amargurando e quando escutou falar que havia guerrilheiros lutando contra o português colonialista, logo se juntou a eles. Fulano esteve na guerra até a independência e quando voltou para a aldeia vinha fardado e foi recebido como um herói. “Fulano havia lutado para que todos fôssemos ricos, partilhando essa grande riqueza, que é, simplesmente, não haver pobreza”, escreve ao neto Dito Mariano.

Na comemoração do primeiro ano da vitória, Fulano não compareceu à festa, ele que seria o maior homenageado por ser da terra; não foi, preferiu ficar com Mariavilhosa, mesmo porque, “aqueles que desfilavam bem na frente, esses nunca haviam se sacrificado pela luta.” Ele conhecia muito bem os oportunistas e, a partir desse dia, calou-se para nunca mais falar em política. Um dia, há muitos anos, Mariavilhosa desiludira-se com a vida e decidiria afogar-se no rio Madzimi,” transmudando-se em água”. Após a morte de quem amava, já não era de um país que Fulano fora excluído. “Era estrangeiro não de uma nação, mas do mundo!”

O padre da aldeia chamava-se Nunes, um português anti-colonialista, ele confessa a Marianito que tinha um ferrão a roer-lhe por dentro: queria ser ele a ter partido para a guerrilha. Não que partilhasse os ideais de Fulano, mas “estava cansado com a injustiça, ela não poderia ser a mando Divino. Imagino quanto o teu pai sofre a ver tudo o que está a acontecer”. A miséria de Luar-de-Chão era, para o sacerdote, somente uma antevisão do que iria acontecer com as sociedades ricas. Os atentados nas grandes cidades seriam apenas um sinal. Não era só gente inocente que morreria. Era o colapso de um modo de viver. Tinha pena de não haver uma crença para onde fugir, como o fizera Fulano Malta há vinte anos.

Novamente Dito Mariano: “ A velhice me ensinou: o amor é coisa de vivo. Ou talvez seja a mãe de toda coisa viva. Pois antes, como eu nunca fui bem vivo, o amor nunca o foi para mim.”

Curozero é um novo personagem, o coveiro da Ilha, filho de João Sabão e irmão da estranha Nyembeti, tão estranha aos olhos ocidentais quanto a África de Mia Couto. Com Curozero chegaremos a um dos pontos fulcrais do romance: a recusa da terra em receber o corpo do semidefunto antes do tempo oportuno, antes de um tempo adequado, que é o da verdade e da harmonização. A tentativa de enterrar Dito Mariano encontra a maior resistência no solo adubado pela mentira e pela insensatez humana, um solo que se fecha completamente. O chão arenoso em que o automóvel importado de Ultímio atolara resiste, agora, rígido, à pá do coveiro e faz com que seu metal se vergue na rocha dura.

O avô ainda deverá permanecer insepulto na sala sem teto da casa familiar, até que toda a verdade seja revelada, verdade que libertará as pessoas e a própria terra. Em nova carta ordena ao neto que entregue ao pai a farda de guerrilheiro, que ele escondera do filho. Fulano diz ao filho: “não quero mais essa porcaria”. O que ele iria fazer com aquilo, museu da revolução? Reclamar privilégios, apropriar-se de terras, exigir indenização? Fulano despreza tudo isso. E confessa: “Seu avô não queria me deixar partir para a guerrilha e agora me manda isto de volta? Dito Mariano dizia que muitos dos que diziam que queriam mudar o mundo, pretendiam apenas usar de nossa ingenuidade para se transformarem em novos patrões, que a injustiça mudaria apenas de lado.”

Mas Fulano partira para a guerrilha porque sabia que existiam revolucionários autênticos, que lutavam pelo bem do povo. Dissera-lhe o pai: “Nós começamos por pensar que são heróis, em seguida aceitamos que são patriotas, mais tarde, homens de negócio. Por fim, chegamos à conclusão de que não passam de ladrões.” Respondera-lhe o filho: “Não todos”.

Na penúltima carta, a revelação: o avô confessa ser o verdadeiro pai de Marianito; Mariavilhosa jamais poderia ser mãe. Marianito nascera de Admirança! O nascimento e a pseudo gravidez de Mariavilhosa   fora pura encenação.

Afinal, Dito Mariano confidencia seu último crime, sua última mentira: a pistola que matara Sabão pertencia a Fulano, era da guerrilha, ela “ tinha valor de vida sonhada”. Necessitado de dinheiro, roubara-a do filho e a vendera aos netos, filhos de Últímio. Depois ele a roubara da polícia a pistola, mais para evitar escândalo.

Não fora à toa que o falecido avô resistira em morrer. O retorno às origens trilhado pelo neto abrira ao velho a possibilidade de sua partida derradeira, para uma nova existência, junto ao rio, nos braços da natureza. A morte exigiu a manutenção da vida até a extração da verdade. Somente após a verdade ressurgida, a terra se aplacou e recebeu o corpo morto de Dito Mariano em seu ventre, no mesmo lugar em que haviam enterrado Mariavilhosa.

Com a verdade, torna-se possível uma harmonização em Luar-de-Chão, que permitirá a preservação das tradições de um povo despedaçado, mas reencontrado em seu umbigo do mundo. Então, Marianito  reencontra Fulano: ele está fardado, reconciliara-se com o seu passado de lutas. Ele e o irmão Abstinêncio haviam decidido mudar-se para a casa familiar e assumi-la, impedindo que os planos de destruição do lar por Ultímio se consumam.

Ultímio este diz a Mariano: “ Você pensa que somos a geração da traição. Pois verá a geração que se segue! Eu sei do que estou a falar...” E ele falava dos próprios filhos, das gangues que trariam mais uma maldição à terra: o narcotráfico. A resposta de Marianito, entretanto, prenuncia um novo voo do flamingo: Tio, “ isso que você chama de geração, eu também faço parte”. Mariano é a parcela sadia, descente e pensante dessa nova geração, esperança de Moçambique.

Antes de partir para a Cidade, que afinal era o seu lugar, Mariano busca por Nyembeti, que substituíra o irmão, agora era a coveira de Luar-do-Chão. Mariano vai ao cemitério em sua busca e numa cova recém-aberta, é possuído pela moça. E ele a reencontra numa paixão da infância e ao mesmo tempo, é penetrado pelo amor da terra profunda, recebe a afeição da tradição de seu povo, ele também será, desde já, Luar-do-Chão.

 

Nas águas do rio Madzimi, Mariano chegou e figurativamente reencontrou suas origens e seu passado, empreendendo, para tanto, um denso mergulho em suas memórias, nas memórias de Dito Mariano, seu alter-ego, às margens desse mesmo rio. A sua chegada a Luar-do-Chão e a partida do avô são, por si mesmo, sincronizadas. Uma não poderia ocorrer sem a outra.

O tempo e a casa selam uma união dentro do romance. O tempo, masculino, representa os homens da história. Sofre um processo de desmoronamento que reflete a desconstrução dos homens da terra e desta família: suas dependências emocionais, suas ambições sempre volúveis, os desenganos vestidos pela guerra do país e desnudos por uma fome de paz interna e externa, insaciável em seus corpos e espíritos. A casa, o feminino, é habitada pelas mulheres. Ela precisa de defesa num momento do desmoronamento social e quando da morte do patriarca, que simboliza parcela de um passado a ser preservado da degradação.

Na harmonização de Fulano, o não-pai que aprendeu a ser pai e na não abstenção de Abstinêncio, sob a mediação moderna e honesta de Marianito, a casa reencontrará a sua defesa, a sustentabilidade de muitas de suas tradições na identidade de uma Ilha chamada Luar-do-Chão, separada  da Cidade apenas pelas águas do rio Madzimi.

Mia Couto nos conduz em sua longa poesia ao seu umbigo do mundo: "Nenhum país é tão pequeno como o nosso. Nele só existem dois lugares: a Cidade e a Ilha. A separá-los, apenas um rio. Aquelas águas, porém, afastam mais que a sua própria distância. Entre um e outro lado reside um infinito. São duas nações, mais longínquas que planetas. Somos um povo, sim, mas de duas gentes, duas almas."

O Outro Pé da Sereia



Passaram-se aproximadamente seis anos entre a criação de o “Último voo do flamingo” e de o “O outro pé da sereia”. Agora Mia Couto abandona pelos escaninhos da criação seus guerrilheiros heroicos, “os governantes que se transformaram em negociantes”, e, “os comedores de terra”, que habitavam seus livros no começo da década. Ele opta por uma retórica híbrida, refinada e ainda mais sutil, permeada de recursos estilísticos, sem privar-se dos questionamentos acerca dos estereótipos que envolvem a África. Mia vai além das questões político-sociais contemporâneas, na previsão de que o africano reencontre suas origens, suas tradições, seus cultos, suas crenças. Agora Moçambique simboliza a luta para “esquecer seu passado”, busca descanso e a retomada em um “antigamente”, enfim reconstrução desde suas raízes.

“O outro pé da sereia” nos surpreende pela leveza plástica que, em seu lirismo, não abre mão da profundidade, estando inserido numa realidade trágica. Mia nos convida a viajar, pois seu romance, como a Odisseia, é um livro de viagens, de aventuras que ocorrem em dois tempos históricos separados por quinhentos anos! A narrativa alterna entre um passado com raízes históricas e um presente que se torna passado. Em 1560, revivemos os primórdios da colonização portuguesa acompanhando a expedição do jesuíta Gonçalo da Silveira, que parte da colônia portuguesa de Goa, na Índia, até a fronteira entre Zimbabwe e Moçambique, nas terras do chamado reino Monomotapa. Ele traz consigo tropas, escravos, artigos para troca comercial e busca alianças que permitam a “salvação das almas pagãs” e, principalmente, a expansão dos interesses do império português.

Viagens pelo oceano e pelos rios, num passado remoto e num passado presentificado, entrecruzadas com visitas a desaparecidos, com sonhos que julgamos ser vida. Uma viagem à alma, individual e coletiva, onde se encontram presentes o lado revolucionário e o solidário, o mesquinho e o conformista, o amante e o dos pequenos e grandes ódios e, principalmente, os interesses de posse e poder.http://proust.net.br/blog/wp-includes/js/tinymce/plugins/wordpress/img/trans.gif

Ao criar um mundo ficcional em que o impossível torna-se natural, Mia Couto utiliza a palavra como o lugar da construção da identidade, pois nela a memória é preservada e compete somente ao indivíduo decidir o que deve ou não ser lembrado. O real embrinca-se com o imaginário, o fantástico com a realidade. A vida moçambicana é regida de conformidade com “outra ordem de racionalidade”.

A mulher Mwadia, personagem central na história, é a Canoa, o pequeno demônio a ligar nossos estados de alma, o mundo da realidade e o dos sonhos, o da consciência e o do inconsciente; a magia e o racional; o passado, o presente e o futuro que se presentificou no Antigamente e no Longe.

Um questionamento é central: persiste ainda alguma esperança desde que o mundo moçambicano foi invadido pelo colonialismo português, há mais de cinco séculos? Se houver, do que é feita essa esperança? Ah, com Mia Couto, como se tornam frouxos nossos antigos conceitos, preconceitos, utopias...

Moçambique, 2002

Zero Madzero que crescera no Longe, apaixonou-se por Mwadia e refugiou-se com a amada num local chamado Antigamente. Quando partiram, buscaram um local agreste em que ninguém mais fizesse morada. Na Vila Longe, que deixaram para trás, as mulheres haviam emudecido e os homens, perdido a crença. Zero prometera a Mwadia, sua mulher, que no Antigamente a tiraria de uma vida, onde ela já não tinha motivos para viver. Já Mwadia não desejava somente estar distante do Longe, mas queria o exílio que só se consegue quando todos de nós se esquecem. Do passado, Zero Madzero trazia um profundo ferimento no pescoço que sempre sangrava, Mwadia a sua desesperança de viver.

No meio do caminho entre o Longe e o Antigamente ficava o lugarejo da Passagem, onde, vivendo sozinho, o curandeiro Lázaro Vivo não queria que mais ninguém lhe contasse sonhos. Estava saturado por não mais suportar “essa mentira que é o relatar de sonhos”. Porque nenhum sonho se pode relatar. “Seria preciso uma língua sonhada para que o sonho fosse transmissível”. Quando procurado pelas pessoas, ele nunca resolvia seus problemas, “mas os dissolvia”, o que é uma forma superior de se prestar ajuda.

Um dia Zero encontra os restos de um satélite americano espião, que ele considera como se uma estrela sagrada fosse. Às margens do rio mágico e cercados pelo bosque sagrado ele e Mwadia apressam-se a enterrá-lo, um satélite do passado, tão do antigamente como as ordens que os americanos dariam para sua busca. Num ponto de intersecção com o século XVI, eles descobrem semienterrados, um esqueleto humano, uma imagem de Nossa Senhora com um pé amputado e um baú. Deixando o esqueleto onde se encontrava, carregam consigo a imagem e o baú.

Buscam conselhos com o curandeiro Lázaro. Ele lhes contará que o esqueleto do rio era do missionário Silveira, morto há quase quinhentos anos. “Não há fundura para os mortos. Nesse mundo todo só há um cemitério, nosso próprio peito”. Diz ao casal que Zero correria grande perigo se a Santa não voltasse para um abrigo santificado. Como Zero jamais poderia voltar, decidem que Mwadia levaria a Santa até o Longe e a abrigaria na Igreja da vila.

Oceano Índico, 1560

A nau Nossa Senhora da Ajuda navega de Goa a Moçambique levando soldados, funcionários, deportados e escravos, além do provincial dos Jesuítas, Gonçalo da Silveira e um padre, Manuel Antunes. O objetivo da missão era catequizar o imaginário reino de Monomotapa, riquíssimo em ouro e outros materiais. Levavam a bordo a estátua de Nossa Senhora, benta pelo próprio Papa.

Santa ou Sereia, deusa das águas? Caberá a cada espírito sua interpretação. Antes do embarque, a imagem cai no rio e de lá é retirada pelo escravo Nimi Nsundi, para quem a Santa não escorregara, mas fora até o pântano. Afinal, para ele a estátua era Kianda, rainha das águas. Nsundi era um escravo capturado pelos negros do Congo e vendido aos portugueses; no navio tinha a importante função de manter aceso o fogo de proa. Durante toda a viagem pelo oceano ele tentará devolver a Santa às águas, chegando mesmo a lhe serrar um pé.

Ao singrar os mares, estranhos sonhos visitam o padre Antunes: sonhos eróticos com a visão de Nossa Senhora a surgir das águas. A santa que, deixando de ser santa, transformara-se em Kianda. Nesse sonhar inicia-se a metamorfose do homem branco para negro, do cristão para o pagão.

Dia Kumari era uma escrava indiana, mulher que ardia em fogo interno. Quando enviuvara submetera-se às chamas que deveriam consumi-la, mas sobrevivera incólume. A comunidade afastara-a e esse afastamento conduziu-a à escravatura. Até que não notou muita diferença, pois no mundo a que pertencia ser esposa é outro modo de ser escrava. As viúvas apenas acrescentam a solidão à escravidão. Ela se apaixonará por Nsundi, o guardião do fogo.

Numa carta de Nimi Nsundi a Dia Kumari, Mia desvela raízes culturais que navegam os séculos: “Condena-me por me ter convertido aos deuses dos brancos. Saiba que nós cafres, nunca nos convertemos. Uns dizem que nos dividimos entre as religiões. Não nos dividimos, repartimos. A alma é um vento, pode cobrir mar e terra, mas não é da terra nem do mar. A alma é um vento e nós somos um agitar de folha, nos braços da ventania... Meus deuses não pedem nenhuma religião. Os portugueses dizem que não temos alma. Temos, eles é que não veem. O coração dos portugueses está cego. A nossa luz, a luz dos negros é um lugar escuro e por isso eles têm medo que espalhemos cores e cheiro da terra e do pecado. Por isso os missionários querem embranquecer a minha alma... Estou entrando em casa de Kianda, a sereia, a deusa das águas. É essa deusa que me escuta quando me ajoelho aos pés da Virgem deles. Agora que eu te escrevo, vejo que essa letra não é a minha, é de mulher. Meus dedos não têm gesto, eles são o próprio gesto, eu sou a Santa.”

Moçambique, 2002

“A viagem não começa quando se viaja, mas quando se atravessam nossas fronteiras interiores”. Quando Mwadia chega ao Longe trazendo a Santa, D. Constança, sua mãe lhe diz: “ O que faz uma igreja é o sossego que mora lá dentro”. Uma mãe que engordara tanto que estava irreconhecível aos olhos da filha. Diz que engordara por solidão, solidão dos filhos.

Na casa da família ela não reencontra sua tia Luzmila, irmã do padrasto goês, Jesustino. Luzmila, para quem tudo nascia da limpeza, fora a mais dedicada beata de Vila Longe. Ela havia morrido. Constança conta-lhe que Luzmila muito mudara desde que Mwadia partira. Uma noite à mesa de jantar ela disse a todos: “não é por me gabar, mas tenho muito jeito pra puta! Sou Santa Luzmila, mãe dos pecadores, padroeira das putas”. E o desvario piorara ao ponto dela abandonar a cidade e para lá só retornar morta, no carro de um anônimo mineiro.

Mwadia pregou a foto da tia na parede dos ausentes. No chão, um balde recolhia a lágrima dos desaparecidos.

Jesustino, o novo nome do padrasto marido de dona Constança, era alfaiate; ele que trocava de nome a cada ano, almejando viver muito tempo. Conta-se que se desesperara com a morte da irmã mais velha; que Luzmila o seduzira e quando ele se acovardou com a relação incestuosa, ela enlouquecera. Jesustino tentara o suicídio depois da morte da irmã. Não se matando, tornara-se alcoólatra, “que é outra forma de morrer”.

No passado, Mwadia estudara na capital. A família desejava que ela retornasse para ser uma “deusa da água”, quando ela mesma o que  queria era se casar com o negro Zero Madzero. Quando ela retorna, fica grávida de Zero. Seu padrasto insiste que é ele quem a possuíra e que o filho que a enteada carregava era dele. Jesustino, por ciúme, jura de morte Zero. Conta-se que pela primeira vez o burriqueiro  Zero tomou as rédeas da vida e partiu com a mulher que amava, Mwadia, que na realidade, não estava grávida de ninguém.

Nas conversas entre mãe e filha, D. Constança tenta convencer Mwadia de que Zero morrera ao explodir uma mina. Portanto, que ela vivia no Antigamente com um fantasma, que voltasse, pois, para seu lado. “Mãe, por acaso, seu homem é menos fantasma que meu Zero?” “Não são os mortos que ressuscitam, são os vivos que os ressuscitam”.

O pai de Mwadia fora capitão do Exército Colonial, com a devoção ao português própria de bicho domesticado. Depois da Independência, ainda manteve intacta essa lealdade à causa antinacionalista. Enlouquecera, o colonialismo varrera-lhe os miolos. Quando ele morreu, chegou o Jesustino.

Mwadia tem de buscar por um nicho seguro onde deixar a imagem que trouxera, pois a igreja de Longe estava em ruínas, sem telhado, janelas ou portas. Até mesmo o cemitério ao lado era um completo destroço, com sepulturas assaltadas, corvos e ratos. Mwadia pensa na alfaiataria. Inútil, a loja estava encerrada desde que o fantasma da morte desalojara os clientes e emperrara as máquinas de costura. Nada em Longe funcionava: nem telégrafo e nem telefone. Os postes, o cobre, os isolantes, tudo havia sido roubado.

No centro da vila passou pela barbearia do antigo revolucionário Arcanjo Mistura, um homem desiludido, amargado pelo rumo político do país, inconformado com o dito “emprateleirar da revolução”. Culto, exilado pela PIDE para Longe, acostumara-se ao lugar “onde as pessoas esquecem para ter passado e mentem para ter futuro”. Agora ninguém mais precisa de seus cortes, porque o cabelo só cresce nos mortos. A barbearia eram somente escombros. A ironia do destino ali se espalhava: sendo o guardião do espírito revolucionário, Arcanjo vigiava agora uma fortaleza sem muros. Apesar de descrente, a ninguém doía mais o abandono a que estavam devotadas a Igreja e o Cemitério, pois “uma terra que não cuida de seus mortos é porque está sendo governada pela própria morte”.

Um casal de afro-americanos estava para chegar em Longe. Quem o anunciara fora o tio Casuarino, empresário duvidoso de ainda mais duvidoso sucesso. Dizia-se que vinham estudar “histórias de escravos do passado”, por conta de uma ONG americana. Arcanjo ao saber da novidade diz “ esta terra já não é nossa, talvez do Casuarino... Nunca houve, como hoje, tanto escravo no mundo”.

Benjamin e Rose (brasileira) eram afro-americanos. Todos, exceto Arcanjo, querem tirar proveito da situação. Quando os estrangeiros avistam as casas em ruínas na Vila, perguntam se havia sido a guerra e Arcanjo responde: “ Essas casas não foram destruídas, elas morreram. Uma casa morre se não é habitada com amor”. “Nós ocupamos as casas como se fôssemos intrusos, como se fossem propriedades dos outros. Queremos ter o gosto de usufruir sem a responsabilidade de possuir”.

Oceano índico, 1560

No navio do missionário, os escravos simplesmente morriam; como morriam de fome, roubavam os mapas marítimos para comer e a tinta, principalmente a usada para representar a África, a mais venenosa, acelerava a morte. O padre Manuel abria seu coração com o missionário, seu superior: “Como queremos governar de modo cristão todo o mundo, se nem nesse pequeno barco valem as leis de Cristo?” A água dos porões e a comida que serviriam aos escravos tinham sido trocadas por algodão: os comerciantes haviam cambiado vidas por mercadorias. “Primeiro enviamos o Diabo e depois trazemos Deus. Estou transitando de raça, D. Gonçalo, e o pior é que estou gostando”.

Aos poucos D. Gonçalo convence-se de que para o padre e para os descrentes havia apenas o Santo Remédio colonial: a Inquisição, “pois há remédios que doem...”

Bula do Papa Nicolau ao rei de Portugal é mais um contraponto cultural utilizado por Mia: “ nós lhe outorgamos pelo presente documento, com a nossa autoridade apostólica, a livre permissão de invadir, capturar e subjugar os sarracenos e pagãos e qualquer outro incrédulo ou inimigo de Cristo, onde quer que seja, como também reduzir essas pessoas à escravidão perpétua”.

No meio de uma noite o negro Nsundi decepou uma perna da Santa. Foi preso e condenado à morte pelo missionário.   No dia seguinte,  deitariam óleo fervente à pele até que ele confessasse a localização do pedaço de madeira. Mas os cafres do porão começaram sua cantoria, levando o medo ao coração dos portugueses. O missionário Gonçalo sempre tivera para si que a gargalhada era feminina, aos homens servia-lhes o sorriso. Havia que humanizar aqueles pagãos que gargalhavam, talvez com o uso de gargalheiras de ferro. Ouve a canção dos escravos  sem nada poder fazer, assim como ao condenado à morte tocar a mbira, com cantos que partiam de seus dedos, por onde o sangue pingava. No dia seguinte, as cordas da mbira haviam-lhe seccionado os pulsos: Nsundi fugira ao carrasco e à tortura.

O padre Antunes entrega a Dia uma carta de despedida do namorado morto: “A verdadeira viagem é a que fazemos dentro de nós mesmos”.

Moçambique, 2002.

Depois da Independência, Arcanjo tentara voltar à cidade grande, levando com ele uma agenda de nomes e telefones. Foi descobrindo que um a um de seus amigos haviam morrido e foi riscando-os de sua lista, até se dar conta de que estava riscando a si mesmo. Decidiu voltar para Longe quando se deu conta de que não fora só os seus amigos que haviam morrido, mas também o tempo em que ele poderia fazer amigos. “Nós temos que lutar para deixarmos de sermos pretos, para sermos simplesmente pessoas”. “A saudade é uma tatuagem na alma: só nos livramos dela perdendo um pedaço de nós”.

Mas voltemos aos visitantes norte-americanos. Casuarino preparava espetáculos para eles que buscavam “raízes da escravatura”. Mwadia e a mãe, baseadas nos escritos do padre Antunes que estavam no baú encontrado no rio do Antigamente, entravam em transe sobre o passado, retornavam a 1560 e ofereciam o espetáculo pelo qual os visitantes pagavam.

Moçambique, 1560

O barco chegara a Moçambique e seguiu viagem para o continente, para o reino dos selvagens e terríveis pagãos: os monomotapas. Para padre Antunes: “Quando se inventam maldades sobre um povo, é para abençoar as maldades que farão sobre ele... vamos ver que, quando chegarmos, esses cafres não são tão perigosos assim; por piores serão iguais aos homens brancos”. Resolve, então, escrever um livro sobre a viagem, aquele que agora resumimos.

Na chegada à terra, o padre completa sua metamorfose. Declara, então, ao superior que, se no passado sonhava que se convertia em um negro, “agora estava certo: ser negro é um modo de viver e esse será, a partir de agora, o meu modo de viver”. Assim, não mais batina. Seu novo nome com que se auto-batiza: Nimi Nsundi.

Em janeiro de 1561, o missionário Gonçalo chegou à capital do reino buscado. O Imperador ofereceu-lhe ouro e mulheres. Mas o missionário era devotado apenas à imagem que trazia consigo. O Imperador deseja  conhecer e dormir com tão formosa mulher. Decepciona-se com a Santa de madeira que lhe é levada pelo missionário.

Nessa mesma noite, em sua tenda, D. Gonçalo morre enforcado. O escravo Xilundo auxiliou os dois soldados portugueses no enterro do missionário, assassinado por eles e por um rico comerciante português; também enterram a Santa e o baú com o diário de bordo escrito pelo padre Antunes, nas margens do rio.

Moçambique, 2002

“Sabe por que não nos lembramos de muitas coisas? É porque sempre estivemos misturados, vítimas e culpados.” “Acontecera o mesmo com a guerra, milhares de mortos, uma lista infindável e indizível de crimes. Alguém assumiu esse passado? Alguma vez a culpa se escrevia com rostos, nomes e datas? A árvore do esquecimento está plantada dentro de nós”. Por tudo isso, “esse mundo não é falso, ele é um erro”, dizia o antigo revolucionário, o barbeiro Arcanjo Mistura.

O barbeiro pede a Mwadia para dormir uma noite ao pé da Santa; no dia seguinte ele desaparece, pois afinal, os estrangeiros todos estavam voltando para a sua terra e “era hora de ele partir para algum lugar em que fosse ele o estrangeiro”.

A partida de Arcanjo determina o momento das verdades a serem aclaradas. Contam a Mwadia que sua mãe engordara não por saudades dos filhos, mas para reduzir a dor das porradas que recebia de Jesustino.  A submissão da mulher africana desnuda-se totalmente na confissão que Constança faz à filha: engordara para que Jesustino não se machucasse ao bater em ossos e durezas!

Rosie revela que nada a ligava a Benjamin e que na África descobrira que seu lugar era no Brasil. Benjamin e ela não eram espiões dos norte-americanos, mas sim, tão somente, aproveitadores baratos de crentes americanos.

Mwadia  voltará  para o seu Antigamente. D. Constança ainda tenta retê-la dizendo-lhe que ninguém a esperava em lugar algum. Conta-lhe a verdade: seu homem, Zero Madzero,  fora assassinado por Jesustino, no passado. “ Não são os grandes traumas que fabricam as grandes maldades. São, sim, as miúdas arrelias do quotidiano, esse silencioso pilão que vai esmorecendo a esperança , grão a grão”. Porém o Zero com quem ela vivia era outro! “Não era aquele Zero, diz para a sua mãe!” Mas se estava tão certa disso, por que se levantou chorando tanto?

Quando a filha parte, leva consigo uma foto de Zero Madzero que colocará na moldura dos parentes ausentes, os mortos.

Uma viagem somente termina quando encerramos nossas fronteiras interiores. “Regressamos a nós, não a um lugar”. Mwadia sentia que retornava aos labirintos de sua alma enquanto a canoa a conduzia pelos meandros do rio Messenguesi. Na ida ela se preocupara em sombrear a Virgem; no retorno, ali estava a Santa Mulata, afeiçoada ao sol da África. Quando chegou ao ponto de partida, ela depositou a imagem junto ao tronco da árvore e disse: Você já foi Santa. Agora é sereia, agora é Nzuzu!

Surpreendeu-se ao ver-se aguardada por Zero. Andaram como se seus pés produzissem poeira e Mwadia de novo se internou em um mundo ausente de paisagens; as árvores que ela conhecera tão frondosas no Longe, aqui eram ramos indigentes raspando o sol. Árvores de rapina. “Você volta carregando o peso da tristeza”, disse-lhe o amante.

Ela não respondeu por que estava incapaz de falar, afogada num tumulto de sentimentos. À noite, Mwadia sentou-se na varanda, e o horizonte era uma espécie de fundo escuro, ponteado de rostos; foi distinguindo-os um a um: lá estavam o padrasto, Luzmila, Matambira, Casuarino, Arcanjo e seu pai. Ao centro, a figura impoluta de dona Constança. Aquela era a parede dos seus ausentes, que se erguia no interior da própria alma. “Como se caminhasse dentro de si mesma reparou num espaço vazio e, na sua mão, estava a foto do último ausente, Zero”.

Retornou ao rio e enterrou o baú do padre Silveira. Ao voltar à casa, aproximou-se do leito em que Zero Madzero dormia e disse-lhe: “acabei de enterrar uma estrela”. Beijou-o e tomou o caminho do rio. O rio do qual era canoa, ao qual se uniria em definitivo.